Lugar de acontecimentos

“– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram…”.

Nada demais como primeiras palavras de uma conversa, mas algo inusitado e indesejado mudaria completamente a história do interiorzinho perdido no tempo e no espaço e aquela seria sempre a primeira frase recorrente a ser dita nas rodas de fofoca provinciana: “– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram…”.

Tudo estava acontecendo num ritmo que deixava os habitantes perplexos e os dias se sucediam sem que a gente do povoado pudesse compreender as razões da catástrofe. A família toda se via envolvida no problema. Somente o pai, austero e reservado, não tratava claramente do assunto. A cidade inteira já começava a se inquietar com a ausência de desfecho e a coisa se prolongava dolorosamente. Ninguém sabia as razões do acontecido e tudo ficava sob um sombrio manto de neblina.  Manhãs, tardes, noites… o calendário inteiro se destinava somente ao trágico tema.

Mas, isso não duraria tanto tempo assim…

Numa noite fria de domingo, a cidade minúscula recebeu um estranho falastrão, de passagem para uma vila próxima. Ao final de um porre colossal, havia dito mil segredos em meio às bizarrias que falava. Contara, defronte a duas translúcidas garrafas de cachaça e cercado de curiosos mal-intencionados, que conhecera um artista circense em fuga de um lugarejo e que esse tinha matado sua jovem noiva. O bêbado agora já contava tudo, tudinho, e a qualquer um, em troca de um dia de comida e roupas usadas.

Durante o discurso do bêbado, entrara no bar um homem grande feito um urso.  Era o pai da moça que havia sido morta em pleno picadeiro do pobre circo e diante de todo o público, numa manobra assassina e traiçoeira do outro trapezista.

Toda a história o velho ouviu calado e cabisbaixo num dos recantos do bar. A princípio, ninguém havia o identificado. Ao final de toda a conversa, o pai da morta saiu lentamente, quieto, ensimesmado como era usual no seu comportamento. Todos estranharam aquela atitude aparentemente distante. E só então reconheceram o homem, coberto pelo seu chapéu de palha e abas largas.

No outro dia, ao amanhecer, a pequenina cidade conheceu o último capítulo daquela malfadada novela: no circo – esmagado contra o chão do picadeiro – estava aquele homem enorme, o pai da falecida trapezista. Sucumbira à própria culpa ao saber que a jovem mesma implorara ao seu amado o desfecho terrível que teve a sua curta vida. Uma existência encoberta por mistérios insanos.

Alguém, lá fora do circo – talvez um palhaço triste – dizia em voz baixa e sussurrante, apontando para o picadeiro: “– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram…”.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 19 de outubro de 2011 16:06

    Obrigado, caro Paulo, pelo gentil comentário. Esse é um dos pequenos textos que têm me servido como exercício quase que inicial da escrita em prosa.

    Claro que, assim como na poesia, sinto-me apenas um aprendiz, precisando de um norte definitivo e de muita elaboração e evolução ainda.

    De qualquer sorte, como acredito que ainda viverei uns cinquenta anos, ando me reencontrando com umas ideias na cachola e um lápis Faber-Castell nº 2 na mão.

    Ah! Ainda estou trabalhando a ideia de uma novela ou romance que intitularei: “O Mundo é uma Laranja: ou a verdadeira fisiologia dos invertebrados”.

    Abraço amistoso.

  2. Paulo Caldas Neto 18 de outubro de 2011 17:37

    Texto interessante! Lívio, não sabia que também escrevia ficção! Parabéns!

  3. Lívio Oliveira 11 de outubro de 2011 23:36

    Danclads, parceiro, generosidade muita a sua. Abraço!

  4. Danclads Lins de Andrade 11 de outubro de 2011 19:24

    … Foi aqui mesmo que eu li este conto maravilhoso… Lívio, bom ter você por aqui de novo. Parabéns.

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