Luís da Câmara Cascudo e Gilberto F. Vasconcellos

A paixão gilbertiana pelo mestre da cultura popular Câmara Cascudo é comovente porquê, com conhecimento de causa e leituras criteriosas do vasto e profundo universo cascudiano. Na revista “Caros Amigos” a primeira coisa que leio é o Pequeno Folhetim do Folclore do Gilberto Vasconcellos que acaba de lançar um belo livro “A questão do Folclore do Brasil do sincretismo à xifopagia” pela EDUFRN no selo da coleção Estudos Norte-Riograndenses.

“Tudo que é importante no Brasil vem de Machado de Assis e Euclides da Cunha”, concordo. Gilberto visitou Cascudo mouco e veio morar no nordeste para escrever sobre o seu xará de Apipucos. Escreveu um livro comovente sobre o autor de uma das bíblias da cultura brasileira Casa Grande & Senzala. O ensaio Xará de Apipucos foi editado pela Casa Amarela e é um hino de amor ao escritor e homem Gilberto Freyre.

Na Caros e Amigos a maioria dos artigos falam de cascudo com um certa devoção “ Nunca tive em minha vida respeito religioso por ninguém a não ser quando fui visitar Luis da Câmara Cascudo”.

Pra falar do seu xará de Apipucos, Gilberto não consegue deixar de falar de Euclides da Cunha e Câmara Cascudo com num tríbio amor intelectual por esses três grandes fazedores da cultura que se complementam numa xifopagia. Gilberto lê Cascudo e destaca o importante conceito da xifopagia encontrado principalmente no livro Sociologia do Açúcar, de 1971. O açúcar que é tudo pra o Brasileiro. Cachaça, açúcar para adoçar a vida e energia. A bagaceira de engenho é vista por Cascudo como um laboratório de aculturação. Foi aí que o negro africano tornou-se brasileiro. Nesse parlatório os bantos deixaram Zambi por Xangô e Quianda por Yemanjá (Sociologia do Açúcar 1971).

O negro brasileiro, o santo guerreiro na Bahia, São Jorge esse siegfried católico, converteu-se em Ogum. Citando o pesquisador Roger Bastide Cascudo constata que não há contradição entre a cruz e a figa, entre a missa e o terreiro, entre o Padre Eterno e Olorum. O homem do candomblé no Brasil vive nos dois mundo sem nenhum problema (G. Vasconcellos p. 35 obra citada).

Mas o que é xifopagia? Consulto o dicionário do folclore de Cascudo e não encontro esse verbete. A xifopagia seria algo assim: uma miscigenação mantendo as individualidades. As etnias Européias, Americana e Africana se misturaram mantendo sua identidade. Uma mistura sem mistura. Com a palavra meu querido Gilberto de Vasconcellos:

A trajetória do sincretismo à xifopagia detectada na disciplina do folclore com Luis da Câmara Cascudo, mostra a influencia ibérica predominante na cultura popular, e a inexistência de fusão propriamente dita de santos e orixás nos cultos afro-católicos. Assim, o procedimento sincrético, em termos de crença ritual, é substituído pela urdidura xipofágica em que a mistura não se diferencia do resultado, permanecendo uma estrutura mental com elementos distintos e paralelos. (A Questão do Folclore no Brasil p. 93).

Ler Cascudo é uma delícia. Vasconcellos sabe disso e se apaixonou por seu objeto de estudo. Cascudo é uma enciclopédia que dialoga com os grandes estudiosos da cultura brasileira: Gustavo Barroso, Roger Bastide, Henry Koster, Dante Laytano, Arthur Ramos e Silvio Romero. Todos referenciados pelo grande escritor Gilberto Felisberto Vasconcellos em mais um belo livro. Belo livro. Os cascudianos agradecem.

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