Luiz Barbosa, o nosso Maurice Chevalier do Samba (1910 – 1938)

Por João da Mata Costa

Na gravação de “gago apaixonado”, em 1931, Noel teve o acompanhamento originalíssimo de Luiz Barbosa, batendo um lápis nos dentes:

“Mu… mu … mulher em mim fi… fizeste um estrago
Eu de nervoso esto… tou fi… ficando gago”

Esse mesmo Luiz Barbosa que acompanhou Noel na gravação de “gago apaixonado”, foi um dos introdutores do “breque” no samba e criador de um dos instrumentos de percussão mais singulares da MPB, o chapéu de palha.

Com muita bossa e balanço, Luiz Barbosa, mostrou uma nova forma de interpretar o samba que faria escola. Uma de suas grandes interpretações, foi o samba Risoleta, de Raul Marques e Moacyr Bernardino.

“Eu vou mandar prender
essa nega Risoleta
que me fez uma falseta
e me desacatou
porque não lhe dei o meu amor
( isso é conversa pra doutor) ”

Este samba também fez muito sucesso nas vozes de outros cantores de bossa e da malandragem: Jorge Fernandes e Moreira da Silva.

Luiz Barbosa faleceu de tuberculose em 1938, com apenas 28 anos de idade, mas a sua invenção não ficou esquecida. Outro grande intérprete do samba carioca, cheio de picardia e muito molejo, chamado Dilermando Pinheiro adotou o chapéu de palha como instrumento de percussão para acompanhar com muita bossa as suas interpretações. Comprou um “chapéu de palhinha”, que chamou de “stradivarius”, e saiu cantando por mais de 20 anos. Junto com Ciro Monteiro formaria uma das duplas mais famosas de sambistas do Brasil: “A dupla onze”, assim chamada devido a magreza de ambos. Depois Ciro engordou, e a dupla passou a se chamar “Dupla 10” .

Luiz cantava com muita originalidade e ao interpretar um samba tornava-se co-autor da música. Dividia e brincava com as palavras como ninguém. Abusava com personalidade dos breques e entortava as melodias. Ritmista excepcional batucava em tampo de mesa, capô de automóvel, copo, garrafa, caixa de violão e de fósforos e arcada dentária.

Luiz fez dupla com o grande Sylvio Caldas. E gravou de Wilson Baptista seu terceiro samba, Na Estada da Vida. Wilson que não bebia mas bebeu todas ao saber da grande notícia. Depois de beber em todos os cafés da Praça Tiradentes, acabou preso no 4º Distrito Policial. Após três horas de descanso pediu para falar com o comissário e dizer de sua grande alegria ao saber do samba gravado por Luiz. O comissário que também fazia umas letrinhas mostrou para Wilson numa conversa regada a cafezinho servido pelo prontidão. Ao fim do bate papo, o doutor falou para Wilson aparecer e emprestou cinco mil réis ao novo amigo, ( in Wilson Baptista , o Samba foi sua glória de Rodrigo Alzuguir )

Nássara disse de Luiz: “ uma das admirações mais positivas que tive na música popular.” E outro grande sambista (Antonio Almeida) assim se referiu a ele: “ Todos eram pintos perto do Luiz Barbosa, que foi um troço, uma coisa.”

As fábricas de discos não lhe davam atenção e duvidavam se ele seria um cantor ou humorista. Luiz foi um dos maiores sambistas de sempre. Um caricaturista do samba e, para outros, o nosso Maurice Chevalier. Cantava com graça, leveza e agilidade: quase conversando. Com seu eterno chapéu de palha ele foi o nosso canotier ou boater.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 13 de fevereiro de 2015 17:14

    Belo texto,hoje não se fazem sambistas como esses, cuja criatividade e originalidade era espetacular, viviam por amor ao samba e sua arte,hoje as boas criações são poucas, cada vez menos, é uma pena,por isso devemos um viva a Luiz Barbosa,Wilson Baptista, e tantos outros ,que além de nos legarem maravilhosos sambas,deixaram muita história boas para se contadas

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