Lula e classes sociais

Como se sabe, o termo “classes” foi usado para designar grupos sociais desde a Roma antiga, com um sentido mais próximo de ocupações, áreas de atuação. Os filósofos iluministas tornaram a questão mais densa, englobando rendimento, modo de vida, cultura – Voltaire, Montesquieu e Rousseau têm ótimas passagens sobre isso. Marx e Engels pegaram o conceito num contexto da Economia Política que os clássicos ingleses tinham inventado e eles criticaram (quer dizer, retomaram visando a sua superação sem que a desprezassem em nenhum momento). Em Marx e Engels, classes são grupos estruturais da sociedade, ligados de diferentes formas à propriedade, à produção e ao poder. A sociologia norte-americana tendeu a transformar classes sociais em grupos de renda e consumo.

No tempo em que Marx e Engels escreviam, o Brasil era uma monarquia escravista, como todos sabem. A escravidão acabou legalmente em 1888 mas até hoje, surgem denúncias de trabalho escravo em Maranhão, Paraná e São Paulo – quer dizer, no país todo.

Lula teve infância pobre, tornou-se operário especializado (estudou no SENAI), depois virou um líder sindical de peso e dirigente partidário.

Fui aluno do excelente sociólogo Mauricio Tragtenberg, infelizmente já falecido. Ele comentava que lideranças sindicais são ex-trabalhadores, tornados burocratas com remuneração e outros tópicos de padrão de vida superiores a suas origens.

Evidentemente, desde que Lula foi líder sindical, e ainda mais depois que ele se tornou fundador e presidente de um partido, ele ingressou na classe A brasileira – rendimentos, padrão de vida, poderes.

O recente episódio de ele receber um título de Doutor Honoris Causa na Sciences Po de Paris mereceu comentários hilariantes da rede Globo, cujo apotegma foi a indagação “Por que não FHC?”

No momento em que Lula recebe esse título, ele já é classe AAA no Brasil – um ex-presidente, além de polpudo salário, tem retaguarda de segurança e outras mumunhas mais. Mas nossa estrutura social, saudosa da senzala e com pruridos aristocráticos (como se sabe, a FLIP inclui um almoço oferecido pela família Orleans e Bragança, muitos escritores de direita, esquerda e centro sentem-se honrados quando convidados para o evento), irrita-se com novos classe A, cobra estirpe e títulos acadêmicos mais que um Honoris Causa (até Darcy Ribeiro passou por isso…).

Tenho duras críticas ao governo Lula e a seus sucessores. Entendo que, junto com algumas políticas sociais de interesse (em meu campo de trabalho, destaco o mínimo apoio dado à expansão da universidade pública e das escolas técnicas federais, ameaçadas na gestão do douto FHC), houve políticas de esvaziamento partidário (o que é o PT hoje, além de “partido do governo” e aliado de Deus e o Diabo?) e esvaziamento sindical (sinto angústia quando vejo hoje as comemorações do 1º de maio, que mais parecem gincana do SBT).

Criticar politicamente Lula não pode significar apoiar os preconceitos dos escravistas e aristocratas brasileiros. Quando a Globo age preconceituosamente contra Lula, está agredindo os pobres. Lula não é pobre há muito tempo. Existem dezenas de milhões de pobres no país e são eles as vítimas do preconceito.

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