Lula ministro: virada à esquerda do governo ou suicídio político?

Não gostaria de desinflar as esperanças de quem acredita que a entrada de Lula possa ajudar a melhorar o governo de Dilma, mas no momento estou propenso a achar que a decisão esteja mais para um suicídio político. Primeiro, porque gera na maioria da população a sensação de que seja uma manobra para fugir da perseguição judicial, por quão parcial e desproporcional ela esteja sendo. Segundo, porque por quão hábil o ex-presidente possa ser em fazer política (algo que, no momento, o país precisa e em que Dilma está se mostrando nitidamente incapaz), não pode fazer milagres e as margens de negociação com um Congresso de extrema direita e golpista – e que, ainda por cima, sonha em se livrar definitivamente dele como possível candidato em 2018 – são mínimas, se não inexistentes.

Se quiser fazer o que Dilma não teve coragem de fazer, ou seja, empurrar o governo mais à esquerda, certamente não o conseguirá pela via da velha política de alianças: será obrigado a encarar de frente – ou melhor, a trabalhar para que Dilma encare de frente – o Congresso, conclamando os movimentos populares e as bases sociais a apoiar o governo desde as ruas. Isso poderia eventualmente levantar a bola do PT, atualmente baixíssima, perante as bases que se mobilizaram em 2014 para reeleger Dilma, mas provavelmente não seria suficiente para ganhar o apoio da maioria da população que, na prática, não veria mudanças substanciais em suas vidas.

Caso o governo não faça a inflexão à esquerda, Lula vai ficar manchado tanto para suas bases sociais – que perderiam definitivamente a confiança nele como possibilidade de regeneração do PT – como para o grosso da população, que vai associa-lo ao governo impopular de Dilma (impedindo que, em 2018, possa se apresentar como aquele que vai “resgatar o projeto petista originário”).

A única maneira dele não queimar seu capital político seria pressionar Dilma para que aumente os gastos sociais, alivie – ou acabe logo de uma vez com – o “ajuste fiscal” que penaliza os pobres poupando os ricos, amplie as políticas afirmativas, dialogue mais com os movimentos sociais, promova políticas para as minorias e outras medidas que façam a população perceber melhoras em suas vidas nos próximos anos (estou falando de um programa bastante conservador realizável apenas pelo Executivo, posto que as grandes reformas estruturais que o país precisa o governo não conseguiria faze-las com o atual Congresso). Mesmo assim, se Dilma não fez nada disso até agora será que Lula no governo conseguirá faze-la mudar de rumo?

São muitas incógnitas e a situação é muito pouco favorável. Por isso, hoje tendo a achar que essa entrada de Lula no governo Dilma seja mais prejudicial do que benéfica para ele e para a possibilidade do PT retomar um rumo de esquerda. Vamos aguardar e observar.

De minha parte, o critério de avaliação é simples. A participação de Lula no governo vai fazer alguma diferença positiva para mulheres, jovens negros das periferias, agricultores familiares, povos indígenas, homo e transexuais agredidos e assassinados diariamente, catadores de lixo, quilombolas, ciganos, ribeirinhos, para os ecossistemas devastados pela mineração, pela agropecuária, pelo latifúndio eco e genocida etc.? Se sim, terá meu apoio. Se não, não terá.

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