A luta pela terra

Por Flávio Gomes
BLOG DA COMPANHIA

Parte da experiência histórica da formação de microsociedades camponesas nas Américas está ligada as comunidades de fugitivos (escravos, africanos, crioulos e indígenas) desde o período de ocupação, atravessando as sociedades pós-coloniais e a Abolição da escravatura em diversos contextos. Apareceram por toda parte, sendo denominadas Cumbes (Venezuela), Palenques (Colômbia), Maroons (Caribe inglês e EUA), Marronage (Caribe Francês), Cimaronaje (Cuba) e Bush Negroes (Guianas).

No Brasil ficaram conhecidas como Quilombos e Mocambos, palavras de origens africanas que significam acampamento e/ou morada improvisada. As primeiras evidências datam de 1575. No século XVII, surgiu o grande quilombo de Palmares com milhares de habitantes na Capitania de Pernambuco. Há notícias de vários deles ao longo dos séculos XVIII e XIX e alguns próximos aos engenhos e engenhocas, outros próximos às áreas de produção de alimentos, aquelas de mineração, e também de terras devolutas e fronteiras internacionais como no caso da Guiana Francesa, Uruguai e Bolívia.

Proliferaram ainda mais com as conexões aparentemente invisíveis, envolvendo vilas de camponeses livres pobres. O importante é que eles nunca ficaram isolados. Interagiam com outros setores camponeses, de índios a imigrantes europeus. Em Goiás, eles se misturaram com os índios Xavantes. No Maranhão, eles viraram garimpeiros e dominaram – durantes séculos – vastas áreas. No Pará, atravessaram fronteiras e se encontraram com os maroons e bush negroes da Guiana Francesa e do Suriname. Durante a Guerra do Paraguai, soldados negros desertaram e formaram comunidades na fronteira e depois rumaram para a Bolívia. Em Minas Gerais, no auge da mineração, construíram um quilombo enorme, sob o comando de Ambrósio. Nas áreas suburbanas de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, eles se proliferaram nas áreas de morros, alagadiços e mangues. Durante as revoltas regenciais — 1831 a 1840 — da Cabanagem (PA), Balaiada (MA) e Cabanada (PE e AL), os quilombos se multiplicaram com as fugas de escravos. No Sul, durante a Farroupilha, fugitivos alcançaram as fronteiras.

No final do século XIX, famílias camponesas negras — vilas de roceiros libertos e grupos de quilombolas — continuariam migrando à procura de terras. Paradoxalmente, no Brasil, cresceu o número de quilombos e mocambos no período da Abolição (1888), quando continuaram lutando para garantir a posse e o título da terra.

Assim quilombos e mocambos não são coisas só do passado, a luta agrária no século XX ganhou novos significados e a denominação remanescente de quilombos foi consagrada na Constituição de 1988, garantindo direitos de posse e titulação de suas terras. Temos hoje, entre outros, os povos quilombolas Kalunga em Goiás e Tocantins, inúmeras comunidades negras rurais no Estado da Bahia, mais de quatrocentas comunidades no Maranhão e mocambeiros no Rio Trombetas em plena Amazônia. Estados como Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, entre outros, não ficam atrás com centenas de comunidades quilombolas.

Existem atualmente mais de cinco mil comunidades quilombolas espalhadas de norte a sul do Brasil, concentrando quase três milhões de habitantes que lutam contra invasores, grileiros e pelo reconhecimento dos seus territórios, etnicidade e cultura.

Neste livro, narramos a história dos quilombos de ontem e de hoje. Através de investigações de documentos históricos, da memória social, da história oral e das etnografias contemporâneas ampliam-se as suas definições e conceitos.

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Flávio Gomes é autor da Companhia das Letras e acaba de publicar o livro Mocambos e Quilombos – Uma história do campesinato negro no Brasil pelo selo Claro Enigma.

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