Lutar com palavras

Ainda ouço a história narrada por ele há 25 anos. A voz tranquila e pausada desenhava o movimento que a sua mãe fazia com a saia para “esconder” o irmão mais velho dos olhares dos outros. Sim, a minha mãe sabia o que fazia, dizia ele. Ela sabia. Quando terminou de contar a história fiquei perdida no movimento sutil dessa “Saia do amor”.

E de lá para cá, 25 anos se passaram e muitos esboços foram rabiscados e desenhados na tentativa de traduzir essa história. E como tudo tem um tempo determinado, esse tempo chegou em um momento que precisamos nos isolar em virtude de um vírus devastador. Eu tive tempo de respirar para escrever…

Mas, havia ainda uma luta infinda que se travava com a palavra. Tantos escritores e escritoras traduziram, pela metalinguagem da perfeição, esse duelo de poderes contraditórios que pode libertar o homem ou oprimi-lo. No Romance LIII ou das Palavras Aéreas, Cecília Meireles sentencia:

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

E foi neste processo de “ais” – de suspiros profundos, e – muitas vezes de impotência –  em busca de uma analogia perfeita, em busca da interseção entre a realidade da voz do meu amigo e da parrarealidade presente no texto de caráter literário – que fui tecendo uma ideia confeccionada em uma “saia de bolinhas”, de amor. Desejava um texto simples, de imagens simples e enternecedoras, assim como ele. Uma figura sagrada e do bem. Afeiçoado a Desus.

O texto tomou corpo. Foi passeado pelos olhares aguçados de alguns amigos e amigas. Suprimimos palavras, acrescentamos outras. E lembramos de que não há texto do texto único. Somente nas ideias eternas. E me bastou saber que poderia considerar o que ali estava dito. Mas, faltava a ilustração. Este detalhe primoroso que pode elevar a linguagem das letrinhas, e também espicaçá-las… Tanta gente fazendo ilustrações exemplares. Tantos escorredores de luz magníficos.

Roberto Silva detalhou cada palavra dessa história em águas de aquarelas, um enlevo em todas as sequências, um andamento de tintas que escorrem além dos limites dos desenhos, das folhas, das margens… Melhor acentuando o olhar sobre os desenhos magníficos de Roberto Silva nas palavras de C. S. Lewis: “Devemos olhar, e continuar olhando até termos certeza de que vimos exatamente o que está lá. Nós nos sentamos diante da imagem para que algo aconteça conosco, e não para fazer alguma coisa com ela. A primeira exigência que qualquer obra de qualquer tipo de arte impõe a nós é a rendição. Olhar. Ouvir. Receber.” Todos os desenhos completam os possíveis espaços “em branco” que as palavras não foram capazes de traduzir.

No mais, a história tem vida própria porque é uma forma de vida. De amor.

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