Lux in tenebris

Por Alcione Araújo
NO CONTEÚDO LIVRE

“A discrição me calou a pergunta que não queria calar”

Conduzido pela mulher, aproximou-se e me estendeu a mão leve, macia e morna. Avançou o rosto, meio voltado para o lado, peculiar a quem prefere a audição à visão, e, com voz pausada de tenor, elogiou entusiasmado o meu romance, que acabara de ler. Sem óculos, não escondia o olho direito cerrado e o esquerdo entreaberto. Respeitáveis cabelos brancos lhe davam mais que autoridade literária, credibilidade humana. Rosto rosado, a mulher sorria tímida e quieta, oferecendo o braço que ele agarrava como a um esteio.

A discrição me calou a pergunta que não queria calar. Seus olhos e as atitudes eram as de um cego. Mas as palavras eram as de alguém familiarizado com a literatura; diria mais, de leitor atualizado. Dos autores a que aludiu na breve conversa, estava o poeta Antônio Cícero, que assistia a tudo ao meu lado.

Se a cegueira lhe vedava a leitura, poderia ler em braile; não estaria, porém, tão atualizado – edições em braile não acompanham o movimento editorial. Certamente a mulher silenciosa, em quem se apoiava, lia para ele nas manhãs calmas e noites adentro, sussurrando, com voz doce, palavras que iluminavam a sua escuridão e povoavam sua mente inquieta de tramas e personagens.

Foi quando, interrompendo meu devaneio, ele se apresentou como J. Martins, radialista, enquanto deixava escapar um resmungo por estar fora do ar, no momento, a emissora onde tem um programa. Gostaria de me entrevistar, e até tinha em mente várias perguntas que queria me fazer. Estávamos na 9ª Feira do Livro de Joinville, rica cidade do interior de Santa Catarina, que é maior, porém menos famosa, que a capital, Florianópolis. O assunto literatura ocupava jornais, emissoras de rádio e televisão. E esse assunto nos levara lá.

A curiosidade atropelou a discrição. Ia disparar a pergunta que não podia mais calar, quando ele, talvez adivinhando, se antecipou. Com a naturalidade de quem deu infinitas vezes a mesma explicação, disse que nascera cego, vítima de glaucoma congênito, fruto da pressão intraocular que lesou o nervo ótico.

E me vieram à cabeça Homero, Tirésias, John Milton, Glauco Matoso e Jorge Luís Borges – este, quando dirigia a Biblioteca de Buenos Aires, disse: “Esplêndida ironia de Deus em conceder-me a um só tempo 800 mil livros e a escuridão”. Mas J. Martins não está entre os cegos que, por serem poetas, puderam ver a escuridão. E o que eu mais queria saber era se aquela mulher silenciosa, de olhar sereno e rosto rosado, lia para ele de noite, ideia que se tornara devaneio persistente: ele de rosto voltado para o lado, olhando o vazio à sua frente, enquanto ela sussurrava mágicas palavras ao seu ouvido.

Objetivo, ele explicou sua nada lírica maneira de ler. Primeiro, digitaliza todo o livro, página a página. Depois, corrige eventuais erros de empastelamento e composição. Por fim, acessa o programa DOS-Vox, que, numa voz impessoal e metálica, lê o livro. J. Martins não lê, ele ouve as histórias, e não na voz carinhosa da mulher de rosto rosado, como imaginei. Será a mesma história?

Nada disso abala seu prazer. Por gratidão, cita o professor Antônio Borges, da ciência da computação da UFRJ, criador do DOS-Vox, que encheu de luz sua escuridão, tornando-o leitor voraz e atualizado. Num país onde pessoas ditas de visão não leem três títulos por ano, J. Martins leu 52 (!), nesses três meses e meio de 2012. São João (1:5) chamaria de lux in tenebris.

Comentários

Há 17 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 25 de abril de 2012 15:40

    Marcos Silva:

    Ótimo que você já esteja escrevendo um pequeno livro sobre o tema: a atividade de Luís (com ‘s’ ou ‘z’?) Damasceno, como um dos mais antigos livreiros da cidade. Considero o tema muito bom e que pode ser abordado sob vários aspectos – no caso dos projetos de Jarbas Martins, o aspecto epigramático de Luiz, etc.

    Quanto ao professor e escritor Cláudio Galvão o trabalho dele só merece elogios. Não tenho dúvidas que ele é autor de elogiável texto sobre as livrarias em Natal, nas últimas décadas.

    Em relação ao conceito de ‘evolução’ ou mesmo o de ‘progresso’, a minha opinião é de que não devemos vê-los com dogmatismo positivista, de certezas absolutas, etc… Em tempos do tal ‘princípio da incerteza’, é melhor mesmo ser menos dogmático – me corrija se eu estiver errado.

    Você, como professor universitário e historiador, leitor de Foucault e as teorias dele a respeito de estruturas epistêmicas, práticas discursivas, etc, sabe disso muito melhor do que eu. Mas isso é outro assunto…

  2. Marcos Silva 25 de abril de 2012 14:10

    Jóis:

    No pequeno livro em homenagem a Luís que organizo há alguns meses (em fase de conclusão), existe um texto de Claudio Galvão sobre as livrarias em Natal. Ele não fala em “evolução” porque esse conceito é muito duvidoso – houve evolução entre a Livraria Universitária dos anos 60 e a Livraria Siciliano hoje? Mas evoca peprsonagens pioneiros emuito significativos.

  3. Marcos Silva 25 de abril de 2012 13:41

    Legal que Jarbas esteja com projetos sobre a memória de Luís Damasceno, quanto mais se escrever sobre gente importante, melhor. Não encaro a questão como disputa de mercado (aliás, qual mercado?), penso que é ampliação do questionário.
    Quando escrevi sobre Esmeraldo Siqueira, destaquei o risco de vermos nele somente um fazedor de bons mots. Ele era isso e muito mais, leitor de Baudelaire, consciência trágica da modernidade etc.
    Luís também.
    Mas os bons mots merecem nossa atenção, claro.

  4. Jóis Alberto 25 de abril de 2012 12:58

    Jarbas, muito bom esse outro projeto seu: pensar em escrever um livro sobre Luiz Damasceno, com biografemas. Acho o tema muito bom, e além do humor de Luiz, sugiro que você, de algum modo (prosa ou versos), escreva também uma breve história da evolução das livrarias de Natal, num dos capítulos do livro. Desse modo, acho que o melhor título é o “O livreiro epigramático de Natal’. Perfeito. Os outros títulos você pode usar para denominar os demais capítulos. ‘Memórias de minha víbora albina’ é divertido! E acho que ele tem bom humor suficiente para aceitar tal título de capítulo.

  5. Jóis Alberto 25 de abril de 2012 12:43

    Lívio, agradeço e aceito o convite. É só marcar uma data a partir de quarta-feira da próxima semana, porque no início da semana terei compromissos na UFRN, anteriormente agendados. Será um grande prazer conversar com você, Jarbas e demais interessados. De antemão, aviso que vou na condição de aprendiz, porque considero que você e Jarbas conhecem muito mais do que eu sobre esses assuntos.

  6. Jóis Alberto 25 de abril de 2012 12:35

    Jarbas, dos que você citou acima, a maioria considero amigos, inteligentes e bem humorados: Lívio, o professor Willington, Carlos Braga… Dos poetas citados, gosto de Nei Leandro, Franklin Jorge e o excelente José Paulo Paes, que, certamente, deverá ser um dos mestres a guiar nossos diálogos acerca de poesia, epigramas, humor… Os irmãos Campos, também, é claro. Existem mestres locais, como o citado Moisés Sesion e eu acrescento também Celso Silveira, concorda?

    Quanto a Othoniel Menezes, considero também bonita a letra de “Serenata do Pescador” (“Praieira”), preciso conhecer melhor a poesia dele – admiro o fato histórico de Othoniel ter sido jornalista editor do jornal “A Liberdade”, da Insurreição Comunista de 1935, muito revolucionário, progressista para a época – confere? -, e que enfrentou várias dificuldades por causa disso, etc, mas acho muito antiquada – pra não dizer pra lá de ultrapassada, pelo menos desde o modernismo dos anos 20 – essa história de ‘príncipe dos poetas’, epíteto pelo qual ele ainda hoje ele é conhecido. Em relação ao filho citado não quero tecer maiores comentários para não gerar mais polêmicas inúteis, aqui no SP, etc.

    Bom, você sabe: não sou intelectual de prestígio, e portanto não tenho status suficiente para convidar nenhum escritor, mas sem dúvidas, pelo que eu já li do prof. Carlos Newton e de Fernando Monteiro, eles são muitos bons escritores, conhecem muito acerca do que escrevem, etc. Eu acho que o professor Willington e a Cooperativa tem condições de organizarem bons eventos em que eles dois poderiam ser convidados especiais, etc. Assim, diante de tanta gente bem preparada, prefiro ficar na minha modesta posição de repórter free lancer e poeta bissexto! E, se eu participar, ficarei sempre na posição de estudante, de aprendiz, de colaborador… É isso. Um abraço.

  7. Jarbas Martins 25 de abril de 2012 8:47

    confesso, amigo Jóis Alberto, quevezououtra uso de maledicências. práticas que aprendi com velhos amigos como Luiz Damasceno.estou pensando, aliás, em escrever seus biografemas. o livro já dispõe de vários títulos, que depois eu escolherei: l)MEMÓRIAS DE MINHA VÍBORA ALBINA, 2) CONLUIOS COM LUIZ; 3) O LIVREIRO EPIGRAMÁTICO DE NATAL e 4) AS DAMAS DE DAMASCENO.homenagem a um dos maiores intelectuais norte-rio-grandenses. amigo é assim mesmo, caro Jóis. amigo é pra se resguardar, o lado esquerdo do peito atento…

  8. Lívio Oliveira 25 de abril de 2012 8:02

    Depois do café com Leite (David), quero convidar o Jóis, meu Mestre Jarbas.

    Jóis, enjoy!!!

  9. David Leite 25 de abril de 2012 7:46

    Jarbas e Lívio; o prazer do encontro foi todo nosso…
    Afinal de contas, papo agradável com a literatura sendo “tema central”, não é todo dia que encontramos…
    Abraços
    David Leite

  10. Jarbas Martins 25 de abril de 2012 6:47

    Poesia e Riso. Eis um projeto que me surgiu agora, e que posso desenvolver com a ajuda de meus amigos, poetas e estudiosos do assunto: Lívio Oliveira e Jóis Alberto.O café da Cooperativa poderia ser o espaço ideal. E lá, com o apoio do prof. Willington Germano, do gerente Acácio, e do conselheiro da Cooperativa, o bem humorado e grande conhecedor da poesia francesa ,Carlos Braga, poderíamos fazer uma espécie de sarau carnavalizado com poemas nossos e dos outros.Posso antecipar alguns nomes de minha preferência: além de poemas nossos (eu, Jóis e Lívio), entrariam, nessa empreitada, poemas de Othoniel Menezes,recitados por meu primo Laélio Ferreira, glosas de Moysés Sesiom. poemas pantagruélicos de Nei Leandro de Castro, desaforismos e epigramas de Franklin Jorge etc. Isso pra ficar na prata da casa. Mas poderíamos ir para outros tempos e espaços e trazer os epigramas de Paladas de Alexandria, traduzidos por José Paulo Paes,os versos fesceninos dos provençais (traduzidos por Augusto e Haroldo de Campos), a epigramática de Marcial, sonetos e rondéis de Corbière. E Oswald de Andrade. E poderíamos convocar o ex-presidente da Cooperativa, prof. Carlos Newton, para falar sobre a póetica de Ariano Suassuna. E outro convidado especial, o poeta, romancista e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, que estará em meados de maio, aqui, em Natal, para lançar um livro. Monteiro é tradutor de W.H.Auden, um poeta que, como poucos na hsitória da poesia, soube dosar a poesia com dois ingredientes básicos: comicidade e bom senso. E está lançada a proposta.

  11. Jóis Alberto 24 de abril de 2012 20:45

    Heine, hein? Acredito que o papo foi unicamente sobre o grande poeta! Imagino, portanto, os epigramas e maledicências de Jarbas Martins que fizeram Lívio rir tanto.

  12. Jarbas Martins 24 de abril de 2012 20:40

    Há um quarto título da obra, sobre Luiz Damasceno, que eu esqueci: CONLUIOS COM LUIZ.

  13. Jarbas Martins 24 de abril de 2012 20:38

    Bela tarde, sem dúvida, poeta Lívio. A presença de David Leite foi um grande acontecimento com o qual eu não contava.À sombra das algarobas virtuais, tomando aquele cafezinho especial, servido por uma das muitas musas que habitam aquele campus, lendo e rindo com a poesia de Henri Heine, fez dessa tarde um momento inesquecível.Dois grandes nomes da nossa intelectualidade foram por nós lembrados: François Silvestre e Luiz Damasceno. A propósito falou-se numa obra sobre esse livreiro, que irá competir com a obra organizada pelo historiador Marcos Silva. Uma obra, organizada por mim, escrita num estilo muito humorado, e com muitas informações sobre LD.Um desses três títulos será o escolhido: 1) O LIVREIRO EPIGRAMÁTICO DE NATAL; 2) AS DAMAS DE DAMASCENO e 3) MEMÓRIAS DE UMA VÍBORA ALBANESA. Aguardem.

  14. Lívio Oliveira 24 de abril de 2012 17:59

    Mestre Jarbas, com você eu sempre aprendo. Como aprendi na tarde de hoje, rindo de Henri Heine lá na Cooperativa. Ri, inclusive, do fato (descoberto por nós) de que Heine era um ótimo cordelista, além de produzir chistes e mais xistos inteligentes, uma pedras de toque…

    Gostei de saber da obra no prelo intitulada “CONLUIOS COM LUIZ”. Beleza pura! E o nosso convidado especial de hoje, sob a algaroba virtual, foi o grande David Leite, excelente papo, com quem tomamos um belo espresso (com “s”) e um agradável café com Leite.

    Vamos repetir a dose, Jarbas, mais umas duzentas vezes?

    Ri, ri. De me torar. E me abri feito um fecheclér de Gideon Sundback.

  15. Jarbas Martins 24 de abril de 2012 13:44

    Caro Lívio, encontrei os versos de Eliot, a que se refere o ministro Ayres Britto. Estão mesmo na edição indicada por você: T.S.Eliot, POESIA – tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira,4a. edição, 1984.Como a edição não é bilíngue, continua a minha busca pelo texto original.Nos versos citados,por Ayres Britto, aparece a palavra “quietude”, para mim, bem mais bela (não sei se mais bem apropriada) que “repouso”, proposta pelo competente tradutor Ivan Junqueira,Tenho também, em mãos, uma outra coletânea desse poeta: T.S.Eliot, “Poemas” (1910- 1930), tradução de Idelma Ribeiro de Faria, Massao Ohno editor, SP, 1985.Nessa coletânea, bilíngue,não consta o poema a que nos reportamos.Toda minha motivação pela poesia eliotiana deve-se a um um fato, que, somente, há poucos dias, constatei; sua poesia aponta para diversidades múltiplas, não só do ponto de vista conteudístico, semântico, – mas principalmente do ponto de vista formal. Eliot pratica a polimetria com uma habilidade de gênio. Talvez essa heterometria é que o tenha mais encantado na poesia de Baudelaire, conforme se infere dos seus eruditos e deliciosos livros de ensaios críticos.Tendo dado mais atenção ao verso eliotiano largo, de amplo respiro, tinha passado, sem me tocar pelo raro octassílabo do anglo-norte-americano, que, em alguns momentos, nos lembra o do nosso João Cabral. Aí foi quando me dei conta, em uma antologia, editada pela Folha de São Paulo, 1987, de uma bela tradução de “Sussurros de Imortalidade”, feita por Nelson Ascher, rimada e se utilizando do octossílabo. Publiquei em meu mural no Facebook, e Nelson me enviou uma outra tradução do mesmo poema, mais atualizada, concedendo-me o direito de escolher uma das duas para publicar e comentar.Publiquei e comentei as duas traduções do poema de Eliot, feitas com virtuossimo e excelência por Nelson Ascher. Um abraço. Lívio. Até mais na tarde na Cooperativa da UFRN.

  16. Lívio Oliveira 24 de abril de 2012 8:50

    Jarbas, amigo, se você estiver em mãos com o volume “Poesia”, Coleção Poiesis, Nova Fronteira, 6ª ed., tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira, você vai encontrar os versos, sim.

    O poema se chama “East Coker” e está às fls. 207/214. É bem longo.

    Trechos:

    “Eu disse à minh’alma, fica tranqüila, e deixa baixar o escuro
    sobre ti,
    Pois que aí tudo será ttreva divina. Como um teatro,
    As luzes se apagam para a troca de cenários (…)”

    “Eu disse à minh’alma, fica tranqüila, e espera sem esperança
    Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera sem amor
    Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda há fé
    Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
    (…)”

    (pág. 211)

    E o último verso é belíssimo: “Em meu fim está o meu princípio”.

    Valeu, Jarbas, o destaque ao poema, ao poeta e ao ótimo Ministro.

  17. Jarbas Martins 24 de abril de 2012 8:26

    E por falar em luz e trevas, gostei muito – vejam que surpresa – da citação de T.S. Eliot feita pelo novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. “Eu disse à minha alma: fique tranquila e espera, até que as trevas sejam luz e a quietude seja dança”. Belíssimos versos. Andei em busca nos meus livros de poesia de Eliot, em edição bilíngue, e não encontrei os versos a que Ayres Britto se refere. Na competente tradução de Ivan Junqueira não está. Como diria meu avô materno, professor e causídico Zacarias Antônio de Araújo, em seu ofício forense na comarca de Angicos: “Se não estão nos autos do processo, estão no mundo”. Vou sair pelo mundo em busca desses versos de Eliot no original. Valha-me, Nelson Patriota, meu bróder !

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