LUZ

Carlos Gurgel
tens
a cor pálida de um alce vermelho
a profunda dor de tudo que chora
a clara e eterna fonte do ar que socorre

tens
uma delicada forma de ser
como um suspiro que exclama a noite e seus triunfos
uma escalada pelos baús de todas as fogueiras acesas

tens
e as vezes imperceptivelmente inquebrantável
tudo do que um sorriso encerra através dos instantes
uma sacola preenchida de astrolábios lépidos e sem sais

tens
o quebradiço de uma aurora que surge como face de um vidro que cai
de uma avenida preenchida por lixos pornográficos e ladrões
o furor da despedida dos pássaros pela rua que espanta

tens
o frio que abriga a cor das flôres e os olhos do ontem
a travessia de um pobre desconhecido e incrédulo pelo caminho noturno
o colar dos ímpios como mar pontilhado de encontros e partidas

tens
quase o exato momento onde perdi a esperança de te encontrar
o feno onde o esconderijo de dúvidas e vazios se esvai
o borbulhar de uma boca sem fome de um desperdício distante

tens
o nada de uma hora onde os cães adormecem na porta do paraíso
o súbito esquecimento do banho da cachoeira sem o lenço de despedida
e o tanto de um canto que invade hospícios e a mente de que nunca se
deixou amar.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 20 de junho de 2011 8:56

    A poesia de Gurgel é imprescindível neste espaço. E como tem capacidade de formar imagens mentais!

  2. Jarbas Martins 20 de junho de 2011 7:16

    leveza e verdade artística que se acha também na prosa poética de Bartolomeu Correia de Melo. há narrativas suas criadas, tendo como base a redondilha maior (o verso setissilábico). um verso de grande audiência junto às camadas populares. não se vêem nelas as marcas ou o esforço do artesão por trás. Bartolomeu surge também depois da onda vanguardista. tanto nele, como em Gurgel, a espontaneidade é um antídoto contra as lucubrações da chamada arte experimental.

  3. Jarbas Martins 20 de junho de 2011 3:01

    poucos, como ele, legaram à nossa poesia autenticidade artística e leveza.talvez, no passado, Ferreira Itajubá. e no presente – Antônio Francisco.

  4. Jarbas Martins 20 de junho de 2011 2:53

    a poesia de Carlos Gurgel surge como uma lufada de vento, soprando os entulhos da geração vanguardista.

  5. Jarbas Martins 19 de junho de 2011 23:15

    antológico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo