Macalé é grande

Amigos e amigas:

É ótimo que esse documentário sobre Macalé exista. Ele fez algumas obras-primas no nível do que há de melhor, como “Movimento de barcos” (barcarola quase erudita, parceria com José Carlos Capinam num momento de excepcional beleza verbal, gravação antológica de Maria Bethânia) e outras mais. Seu primeiro disco solo foi muito prejudicado por uma produção pífia, que o transformou numa espécie de sub-demo – problema que também atingiu o primeiro disco solo de Tom Zé. Depois, a memória dominante na História da música brasileira cuidou de transformar uns em deuses e deusas e outros em malditos, em nome do sucesso de mercado dos primeiros. Tomzé foi “relançado” por David Byrne – devemos essa aos irmãos ianques. Precisaremos de álibis estrangeiros para entendermos a grandeza de Macalé e Luiz Melodia? (Jorge Mautner, de qualquer maneira, foi apadrinhado por Caetano Veloso, melhor que nada).

Vim morar em São Paulo em 1970. A ditadura estava em seu auge, rolava Dom e Ravel, a linda voz de Wilson Simonal se exibia em Semanas do Exército, até a autêntica brilhante Elis Regina cantou numa delas. Macalé promovia shows com o título “Curtisom”, claro clima de porão contra a cobertura. Muitos companheiros de geração dele retornaram do exílio diretamente para a cobertura, santificados, acima de qualquer discussão. Brecht, na peça “Vida de Galileu”, questiona: Infeliz do país que precisa de heróis. Que dizer de um país que precisa de santos de mercado?
Macalé é mais, Arte é mais. Além dele e de Luiz Melodia, deve ter muita gente para ser desenterrada arqueologicamente. Que venham mais documentários!

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

ao topo