Macbeth: um retrato em sombra e sangue

Simon Keenlyside (Macbeth) and Liudmyla Monastyrska (Lady Macbeth) in Royal Opera's production of Verdi's 'Macbeth' - June 2011 © Clive Barda

Simon Keenlyside (Macbeth) e Liudmyla Monastyrska (Lady Macbeth) na produção, pela Royal Opera House, de ‘Macbeth’ de Verdi – foto por: Clive Barda

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“Salve Macbeth, que um dia há de ser rei!” (fala da 3ª bruxa, em Macbeth, obra escrita por William Shakespeare em1606 – trad. Barbara Heliodora, Clássicos Abril Coleções, vol. 10, 2010).

“Vinde, espíritos/Das idéias mortais; tirai-me o sexo:/Inundai-me, dos pés até a coroa,/De vil crueldade. Dai-me o sangue grosso/Que impede e corta o acesso do remorso;/Não me visitem culpas naturais/Para abalar meu sórdido propósito,(…).” (fala de Lady Macbeth – idem)

“O meu nome é Macbeth.”

(…)

“Fiz o feito. Não ouviste barulhos?”(falas de Macbeth – idem, ibidem)

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Sobre a ópera Macbeth

O que se viu nessa apresentação da ROH (reproduzida e difundida, felizmente, pelo Cinemark em salas de todo o país) foi uma montagem que fez jus à obra literária de Shakespeare, trazendo todo o lado sombrio e sangrento da tragédia escrita pelo célebre bardo, a começar de uma curiosa montagem do palco e cenário (quase sempre escuro, como em algumas obras de Goya) em que o trono era representado por uma espécie de gaiola ou cadeia dourada, a receber o novo rei, assassino covarde e usurpador.

Também colocou num patamar elevado e digno a transcriação operística (1847) de Giuseppe Verdi e de seu libretista Piave, com um regente vibrante à frente da Orquestra da ROH (Antonio Pappano é considerado por muitos o maior regente de ópera destes tempos atuais), além de um coro afinadíssimo, com destaque para as muito expressivas bruxas multiplicadas no palco (no livro são apenas três – recomendo a tradução de Barbara Heliodora, tida como a maior especialista em Shakespeare no Brasil).

Os figurinos sóbrios trouxeram um misto entre uma época imemorial dos pretensos acontecimentos do reino da Escócia e a modernidade, com exibição de algumas partes/peças de vestuário em plástico. Tudo com equilíbrio entre o preto sombrio, o vermelho sangrento e o dourado da pompa e corte.

Destaque mais que merecido para a dupla Simon Keenlyside (barítono que encarna Macbeth) e a soprano Liudmyla Monastyrska (a perversa Lady Macbeth), exibindo vozes vibrantes, perfeitas, redondas e desempenhando com maestria os principais papéis dramáticos da tragédia (os olhares maléficos de Ludmyla eram realmente assustadores). Também chamo atenção para o baixo-barítono Raymond Aceto (no papel de Banquo, uma das vítimas do casal ambicioso e cruel).

Aliás, nesses quatro atos, deu-se um casamento ideal entre a Literatura shakespereana e a música dos sonhos (ou dos pesadelos mais perturbadores e enlouquecedores dos assassinos Macbeth, afogados e destruídos pela culpa e pelo remorso e com os crimes sendo vingados pelos legítimos herdeiros do trono ensanguentado).

Sobre a temporada do ROH no Cinemark

A temporada 2012 de óperas e balés produzidos na Royal Opera House de Londres e exibidos em High Definition (HD) na rede de cinemas Cinemark fecha com chave de ouro neste fim de semana. Macbeth é a ópera que põe fim à temporada deste ano e faz constatar o sucesso (não necessariamente de público), mas da qualidade de um projeto já reconhecido pelos críticos em face do seu alto teor didático e de divulgação dessa forma de arte tão rara, principalmente nesse lado de cá entre os trópicos.

De logo, vale ressaltar a altíssima qualidade técnica das apresentações/reproduções. Nessa temporada em que o Cinemark exibiu pérolas como “Tosca”, “Giselle”, “Romeu e Julieta”, “Cendrillon (Cinderella), “Rigoletto”, “Così Fan Tutte”, “Il Trittico” e “Macbeth”, o meticuloso cuidado com as imagens e o primor dos sons foi algo que ficou evidenciado. E a tentativa de popularizar, minimamente que seja, tais gêneros artístico-musicais já valeu por si mesma, apesar do eventual barulho do mastigar de pipocas e do balançar do saquinho para misturar com o sal.

Puccini, Jules Massenet, Verdi, Mozart, Kenneth MacMillan, Marius Petipa, Angela Gheorghiu, Jonas Kaufmann, Antonio Pappano, Marianela Nuñez, Joyce DiDonato, Eglise Guttiérez, dentre muitos outros, foram nomes que fizeram a mistura principal e brilharam na telona como se todos pertencessem a uma só geração, uma só época: a era da boa música erudita (e da dança, também).

Lamentei, especificamente, pela não apresentação em Natal das peças exibidas “ao vivo” e diretamente de Londres: “Romeu e Julieta” e “Rigoletto”. Na bilheteria do Cinemark alguém me havia informado que o Midway Mall não havia autorizado a instalação dos equipamentos (antenas e outros trambolhos) para a transmissão direta. Triste, mas não apagou as emoções que vivi ao assistir às outras obras imortais.

Outro ponto que não consegui compreender: o longo intervalo de 15 minutos – após os bons comentários feitos sempre pelo expert Marcel Gottlieb – como se estivéssemos em Londres. Desnecessário. Pode ser reduzido, sim, para uns 5 minutos.

Um último ponto negativo: em alguns poucos momentos, a legenda em português não aparecia, dificultando a compreensão das falas/cantos (em italiano ou francês) presentes nos libretos, que não foram distribuídos (poderia ser um brinde razoável, frente ao preço dos ingressos). Nada que não possa ser corrigido.

Enfim, valeu a pena a iniciativa. Inoculou o bom vírus e a vontade de ver os artistas em “carne e osso” e ouvi-los em Londres ou em outros lugares onde a ópera exista de fato. Bom que o projeto prossiga e cresça em 2013.

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Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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