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Macunaíma – Gênese de uma ode a alegria

Já disseram que somos tristes, melancólicos e taciturnos. Que o Macunaíma é um retrato do brasileiro preguiçoso e sem caráter. Mário de Andrade ao publicar o Macunaíma em 1928, estaria descrevendo o típico homem brasileiro. Entre preconceitos e mentiras são criadas as lendas que muitas vezes preenchem o vazio deixado pela falta de estudos mais sérios e documentados num fazer feito de um duro, longo e maturado trabalho. Muitos acreditaram que o índio brasileiro é triste e mal-humorado.

O escritor Paulo Prado publicou no mesmo ano em que saia o Macunaíma, o clássico “Retrato do Brasil”. A tese do livro é que a luxúria e a cobiça pelo ouro fizeram do brasileiro um povo triste. O Paulo utilizou uma imensa bibliografia colonial para embasar a sua tese, que é combatida por muitos estudiosos da cultura brasileira. Para João Ribeiro (1928), ele colocou as nossas origens acima de tudo e tomou a arqueologia brasileira como expressão da atualidade, o que é uma imperfeição da sua tese. Oswald de Andrade (1929), diz que Paulo Prado escreveu um belo livro pré-freudiano que é o glossário histórico do Macunaíma: “a repetição de todas as monstruosidades de julgamento do mundo ocidental sobre a América descoberta”. Um julgamento feito de preconceitos e falso-moralismo. Uma colonização predatória e faminta pelas nossas riquezas. Arrobas e mais arrobas de ouro foram extorquidas. Só não conseguiram levar “O Aleijadinho” e a alegria dos brasileiros que fazem o maior carnaval do mundo.
Não é verdade que o índio brasileiro é triste. Vários escritores coloniais – Jean de Léry (1534-1611), Claude D´Abeville (1573-1632)- narram a alegria e zombarias dos índios que dançam e bebem para entrar em comunhão com o cosmos.

Livro Inspirador

O mito do Macunaíma faz parte do corpus mitológico dos povos do circum-Roraima e foi transcrito pelo alemão Koch- Grunberg. Foi esse livro que inspirou Mário de Andrade na composição da saga do Macunaíma.
Alejo Carpentier também utilizou a etnografia do alemão para compor o belo romance “ Os Passos Perdidos ( 1985).

O antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) registrou o mito indígena do “makunaíma” no livro “Vom Roroima zum Orinoco”, em três volumes

Para Koch-Grünberg os indígenas riem muito. Eles cantam, eles gritam de tanto rir […] eles literalmente rolam na terra de tanto rir (Fleck 2007). Na lenda indígena, “makunaíma” é o deus da natureza. Para pescar, os indios Taulipáng y Arekuná utilizam uma raiz que colocada na água paralisam os peixes. “Makunaíma” podia transformar qualquer animal em rocha.
A rocha contém a ánima e vida do animal.
O Macunaíma é uma ode-à-alegria. Livro-fundador do modernismo brasileiro. Uma rapsódia que desmente toda essa tristeza de que o Paulo Prado diz sermos possuído. Para Darcy Ribeiro, Mário bebeu nos textos sabido do alemão, mas tão bem a desvestiu e revestiu de tupinológicas porandubas de brasilidades arcaicas e de africanidades que são nossas matrizes que ali reluzem (in prefácio à edição crítica do Macunaíma de Telê Porto Ancona Lopez). O Macunaíma de Mario de Andrade (1928) produz uma ruptura na narrativa do espaço-tempo e na composição da personagem. O erudito se mistura com o popular, o urbano com o rural, o literário com o oral, formando um amálgama que é a própria fala brasileira. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, somos nós com muita alegria e humor. “Vamos, irmão pequeno, entre palavras e deuses, exercer a preguiça com vagar” (Mário de Andrade).

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João da Mata

Comentários

1 comment

  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 9 setembro, 2018 at 02:18

    Belíssimo texto Prof João da Mata, a respeito dessa extraordinário obra de Mário de Andrade e sobre ruptora da imagem distorcida do brasileiro.Parabéns mais uma vez por nos presentar com sua belas analises literárias

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