Madeira podre

Saturno devorando um filho (Goya)

O filósofo e teórico suíço Jean-Jacques Rousseau defendia que a violência humana seria decorrente dos modelos impostos pela sociedade ao homem. Este, por sua vez, segundo ele, seria naturalmente bom e piedoso. A bondade é inerente ao homem. Mas a agressividade também. Porém, quando o Estado assume o papel da violência social, ele respalda a barbárie. Estamos diante da eclosão de uma delas. Um processo que vem sendo construído há anos e, acreditem, financiado pelo próprio Estado. Sobretudo por sua omissão.

O pensamento do brasileiro médio é de que a solução para a criminalidade e violência está em prender bandido. Sem contar numa casta mais recente de energúmenos que defende até prender professor que ensina ideologias nas escolas. A partir desse pensamento medíocre, o Estado brasileiro investiu mal e porcamente em programas de tolerância zero contra os bandidos, e aí se incluem principalmente negro e pobre, e nem precisa mesmo ser bandido, basta ser confundido como tal. Nessa mesma pisada, fez investimentos pífios no sistema penitenciário. O resultado é desastroso quando se pensa que o aumento das prisões não foi acompanhado pelo investimento na construção e melhoria dos presídios. E para os agressivos de plantão, eu nem vou falar em direitos humanos. Estou falando de segurança máxima, de um sistema que recupere e não corrompa ainda mais a conduta dos criminosos.

A matemática é muito simples. Se você mistura presos provisórios junto com condenados, as chances de recrutamento para facções criminosas são reais e inevitáveis. Uma vizinha estava a comentar comigo dia desses, porque não punham esses presos para trabalhar? Penitenciárias agrícolas, construir estradas, dentre tantas outras atividades possíveis para tirar esses caras do ócio. A configuração atual dos presídios só é boa para o crime organizado e para os policiais corruptos – que sabemos que não é só coisa de cinema – que tiram proveito da situação, enclausurados em suas sociopatias particulares.

Nos áudios que têm sido divulgados pelas redes sociais – falsos ou não – os bandidos que estão tocando terror e ateando fogo em veículos pela nossa terra falam em condições desumanas na prisão. O recado é claro e eles se dirigem ao governador. Mas não é o governador quem anda de ônibus, não é ele quem vai fazer supermercado. Mas, vejamos, preso não vota! Esse deve ser o pensamento tacanho da maioria dos nossos governantes e legisladores que prometem acabar com a violência nas nossas cidades, mas o fazem tão somente com programas pobres, recheados de repressão policial – com uma grande maioria desses profissionais mal preparadas e mal pagos. Condições que os levam à mesma sanha violenta daqueles que estão do outro lado da margem. Não se combate criminalidade apenas prendendo gente. O crime precisa ser combatido antes que ele comece a corroer a madeira moral do sujeito. Costumamos dizer que os bandidos fazem o que fazem porque “não têm nada a perder”. Por que será que eles não têm nada?

Jornalista formada pela UFRN desde 2000. Trabalhou em veículos como Diário de Natal, Mult TV!, Novo Jornal, Tribuna do Norte e em assessorias de comunicação e imprensa política durante muitos anos. Em 2013 lançou pelo Caravela Selo Cultural o ensaio biográfico, "Navarro - um anjo feito sereno", editado em 2014 pela Edufrn. Atualmente é jornalista free-lancer. Fanpage: bichoesquisito; insta @bicho_esquisito [ Ver todos os artigos ]

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