madrugada distópica

Estou ouvindo em seqüência três canções do Geraldo Vandré, todas daquela época [até porque ouvi dizer que ele largou mão da vida artística e partiu para a atividade anônima de advogado depois]. Eu fiquei curioso para ouvir de mim mesmo – caso um dia eu aprenda a fazer música direito – uma coisa que deveria ser feita por alguém: uma atualização estética das tais três canções de Vandré. Há muita coisa acontecendo depois das tradicionais canções de protesto, não é?

Não há mais porões nem soldados amados ou não com as pedradas armadas apontadas pra nós. A polícia mudou… (permaneceu, no entanto, pateticamente automática: Money no bolso Bala na agulha afundada até o pescoço na Lama)

Você precisa saber, baby ! {ple(iiiii)ase!!!!! stay . by me .; Diana}

Leia na minha camisa:
sou vivente desta cidade. Recebo Viena & Dakar, Nu York & Guatemala São Paulo & Pyongyang . mas são os automóveis da av. senador salgado filho(dap) & os velhinhos (c)a((r)¹azy)ETa da zona sul-norte-oeste-leste que me atropelam. Eu conheço este desmantelo, respiro esta mesma poeira mediana, queria poder desenhar minha paisagem mental pra você ver.

Vocês sabem do que eu estou falando.

Natal. Noiva do sol. Cidade d(as nuvens)o sol. 2.507 quilômetros de Brasília. [na eterna sala de espera, o céu – pela janela – quase não se vê. nem azul se vê. se eu ficar até o sol me derreter OU me transformar em cinza, eu vou PELO MENOS sujar o carpete com minha íngua. (segue o rap:)estou debaixo do tapete/ vivendo à míngua/ mas não vou deixar cortar minha língua/ afiada/ posto que não tenho nada/ não tenho nada a perder/ Eu vou ficar/ até o sol me derreter/ me incendiar/ me transformar em cinza]. PIB R$ 8 656 932,020 mil (BR: 39º) – IBGE/2008[7] PIP PER CAPITA R$ 10 847,40 IBGE/2008[7]. apróx. 803 811 hab. (RN: 1°) – IBGE/2010[5. Cada vez mais meninos de rua & homens-bomba na estação de trem. Cada vez mais suicídios, cada vez mais suicidados. [os olhos negros da mulata; a lata do negro Fustigados pela chuva quase ácida. A cidade: corpo de tumores tácitos. A cidade: copo de pró-seco e cólera. A cidade e suas crias quase-mortas. A cidade e seus bastardos destroçados.] Clima tropical úmido. Quase meia-noite. Hoje é carnaval. [e também tem a classe média na merdaprisionada na dívida/ doida/ se movendo num tabuleiro parado]. Ei, eu estou falando de nós! – Hypocrite lecteur, – mon semblable, – mon frère! Amigos & Amigas, tenho querido lhes dizer, sem usar as palavras certas, que nós (eu & você & assim por diante) todos estamos deva stado s!

O sol aqui vai nos queimar até virarmos cinza!

Quando Vandré cantou encheu de utopia o seu canto. Eu até me arrepio: http://www.youtube.com/watch?v=hmyFak8JBpo

certezas e esperanças pra trocar
por dores e tristezas que bem sei
um dia ainda vão findar

um dia que vem vindo
e que eu vivo pra cantar…
na avenida girando estandarte na mão pra anunciar…

Eu me arrepio e choro.

Saibam: vocês são velhos e eu também, mas sou outro velho, sou o velho que é o novo de agora: nascemos cansados e com o mundo nas costas.

Queria eu uma certeza como a de Vandré… Eu queria essa utopia que não é esta desgastada de agora. Tudo é tão movediço agora. A esta altura do campeonato minhas certezas já se cagaram de medo. Resta só aquela vaga impressão de que tem algo prestes a acontecer e não acontece.

Nós não sabemos o que esperar,
e vamos desesperando.

Vandré, as dores não findaram, e eu já nem sei se findarão. Acabou!

Vamo todo mundo cuidar da vida! ter emprego, carro, terreno em algum lugar… um patrão, um salário… interesses, obstáculos… colegas para derrubar, inimigos para concorrer… com sorte um emprego federal.

Em quê essa nossa vida se transformou desde Vandré?

Um anônimo cinzento sobrevivendo num apartamento relativamente elegante vagando pela sempre mesma trilha confortável e se afogando na gosma do tempo como quem prefere não sujar mais as paredes. O biopoder contemporâneo, conclui Giorgio Agamben, reduz a vida à sobrevida, produz sobreviventes: nós.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × 5 =

ao topo