Mãe Luiza constrói sua mudança

Por Aparecida Fernandes

Que falta nesta cidade?…………………………… Verdade
Que mais por sua desonra?……………………… Honra
Falta mais que se lhe proponha?………………. Vergonha
Quem a pôs neste socrócio? ……………………. Negócio.
Quem causa tal perdição? ……………………….. Ambição.
E o maior desta loucura? ………………………… Usura.
Gregório de Matos

Em entrevista à TV Cultura, em 14 de junho de 2006, a última que Pe. Sabino Gentili concedeu antes de seu falecimento, a repórter perguntou-lhe sobre a Lei de Mãe Luiza e a sua “defesa do pobre”. Ele, com a autenticidade, a sapiência e o meio sorriso que lhe eram peculiares, respondeu: “não é defesa do pobre, não. Isso aqui é cada um cuidando do seu”.

Em outros termos: defesa da propriedade. Conceito puramente liberal. Mas direito garantido por Lei, cravado na Constituição Federal como bem inalienável do ser humano. Ora, direito à propriedade é direito à moradia. A obviedade, no entanto, encontra a sua mais perfeita contradição no Brasil, onde direitos sociais continuam sendo defenestrados por alguns grupos políticos e econômicos.

Mas, como “o homem que nesta terra miserável mora entre feras/ sente inevitável necessidade de também ser fera”, desse conceito liberal – o de propriedade – apropriou-se também a plebe. Esta, cujo destino deveria ser a sarjeta dos mocambos fétidos em zonas de periferia.

Longe de passar pelo discurso ideológico da utopia socialista, esse monstro que segue assombrando felizes habitantes dos paraísos fiscais e dos paraísos condominiais, aprendeu a dançar conforme a música de um capitalismo travestido de moderno, que, para se manter, cria seus mecanismos regulatórios, suas estratégias de controle social. Esse capitalismo mesmo, que descobriu que, melhor do que ter “exércitos de reserva” ou milhões de seres morrendo de inanição, é ter cidadãos em condições de disputar os seus próprios direitos. E no terreno da legalidade. O que ainda é o Estado, senão esse braço regulador que cede retalho ao esfarrapado, mas não a colcha toda?

O Morro de Mãe Luiza foi esse retalho cedido aos imigrantes fugidos da seca. O morro íngreme, de difícil acesso, foi o destino dos esfarrapados, dos pobres, dos maltrapilhos, dos indesejados, dos desvalidos que enfeiavam o centro de Natal, como cães mendigando as migalhas que caíam da mesa dos donos. Aceitaram o retalho e, vencendo matas, ocupando morros, transformaram-no e imprimiram o seu rosto ao lugar. E assumiram uma nova identidade: filhos de Mãe Luiza. Conseguiram melhorias no espaço; lutaram por água, por energia elétrica; lutaram por escolas; brigaram por postos de saúde.

Convivendo décadas a fio com o breu da noite, aprenderam a enxergar, na obscuridade, as almas sebosas da cobiça, da usura, da usurpação. Captaram, sensitivamente, talvez, sem nunca o terem lido, a máxima do velho anarquista que diz que “a propriedade, após despojar o trabalhador pela usura, assassina-o lentamente pelo esgotamento”. Foi o que se tentou e se tenta fazer com Mãe Luiza: depois de rejeitar um grupo de habitantes da cidade sã e de enviá-los ao que então era periferia, na tentativa de escondê-los, de isolá-los, quem sabe até de esquecê-los definitivamente, um belo dia se surpreenderam com o que, a muito custo, esses enjeitados foram capazes de conquistar e transformar. Ali estava um novo bairro, com uma das mais belas vistas da capital, encravado num terreno agora privilegiado e com uma série de melhorias, frutos da capacidade combativa dos filhos de Mãe Luiza. Quão fácil seria, então, comprar os casebres dos miseráveis e, mais de uma geração depois da primeira expulsão, empurrá-los novamente para fora da cidade sã. Quão fácil seria – pensaram – comprar a preço baixo os terrenos de Mãe Luiza e revendê-los supervalorizados através de grandes empreendimentos bem ao gosto do mercado imobiliário.

Porém, seus filhos forjaram-se na luta. Na caminhada, afinaram seu discurso. Contaram com a parceria de quem não lavou as mãos, não se vendeu, não bajulou nossas elites tacanhas, nem cedeu à fácil sedução dos carreirismos. Incontestavelmente íntegro e comprometido, Sabino Gentili pôs-se lado a lado com eles na batalha. E jogaram com as armas que estavam postas: contrariando os ditames tecnocráticos, apropriaram-se da legislação para produzir sua própria lei. Cuidaram para proteger seu chão da espoliação. “A plebe apenas pode fazer tumultos. Para fazer uma revolução, é preciso o povo”, já lembrava Victor Hugo. Assim, o povo se fez. “Cresceu em alto e profundo, em largo e no coração. Adquiriu a dimensão da poesia”: subverteu a lógica elitista de que povo só baixa a cabeça e, munido de conhecimento e disposição, conseguiu permanecer fincado ao solo, sua conquista, seu instrumento maior de exercício da liberdade.

A reação, como era de se esperar, logo viria: é com frequência que o bairro aparece na mídia como a favela que nunca, realmente, foi. É com frequência que o bairro aparece como uma ameaça à cidade sã, como reduto de drogas e bandidos, e não como lar de milhares de famílias trabalhadoras, e que estão ali há gerações. Junte-se a esse discurso – que estimula, através da ignorância e do desconhecimento, o preconceito dos outros habitantes de Natal – a clássica falta de assistência dos poderes municipais e estaduais, e está pronta a fórmula para a nova ocupação e consequente expulsão dos indesejados. Ainda: para que a população, esmorecida, abandone o campo de batalha, desta vez a ausência do poder constituído é estimulada, na tentativa de privar Mãe Luiza dos bens sociais conquistados pelos seus filhos. Em vez de se lutar para que os moradores tenham direito à cidadania – ou seja, educação, saúde, segurança – opta-se por retirá-los do antro terrível em que, supostamente, se tornou, e, o pior, o mais grave, o mais vergonhoso e imoral, como se isso fosse um favor a seus habitantes.

Mas é assim que os moradores de Mãe Luiza querem mudar: não de bairro, mas o bairro – com planos de desenvolvimento social traçados por eles próprios, sujeitos que aprenderam a ser na luta cotidiana contra as injustiças, a discriminação, os repetidos e históricos descasos. Exigem do poder público cumprimento do seu papel: fazer escola funcionar; dar acesso à cultura, ao lazer, ao esporte; oferecer saúde de qualidade. Promover a segurança de quem lá vive. Mas tudo isso junto com a bandeira maior: Mãe Luiza é do morador de Mãe Luiza.

E, ao afrontar o setor imobiliário, o Morro começou a ter vez ao se apropriar da cartilhinha liberal: “esta propriedade é nossa” – essa é a voz do Morro aos especuladores. Avesso do avesso.

Na disputa pela terra urbana, os filhos de Mãe Luiza mantêm as rédeas do controle do próprio espaço, forçando a concretização de outro conceito da cartilha: o de cidadania. Direito este que, presente na boca de todos, até dos mais reacionários, respalda o povo de Mãe Luiza em garantir o seu direito à moradia e por ele lutar.

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 28 de julho de 2011 9:49

    obrigado pelas boas notícias

  2. Aparecida Fernandes 28 de julho de 2011 9:31

    Jarbas, eu ando por aí, sou andorinha solta…
    Deixemos a quimera e voltemos à real: meu poeta, trabalho no IFRN-Campus Santa Cruz (saí do HC/FARN em 2008) desde 2009 e, por isso, faço a ponte cotidianamente Santa Cruz-Emaús-Santa Cruz. Passo a semana no Inharé e retorno às sextas para casa, depois da aula dos meninos. No mais… vou passar uma DM para vc saber de outras notícias

  3. Jarbas Martins 27 de julho de 2011 10:41

    Aparecida, por onde andas?

  4. edjane linhares 27 de julho de 2011 10:21

    Uma turma boa do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua foi resgatada por Sabino (coordenador) para compor a primeira equipe do programa SOS Criança. Atuei como educadora social no período de 1992 a 2002. A temática da minha especialização e dissertação foi sobre esta experiência. Também quero conversar com você. Pegarei o seu email com Tácito.

  5. Aparecida Fernandes 26 de julho de 2011 20:45

    Edjane, em que período e onde vc trabalhou com Sabino? Defendo tese em educação em agosto sobre a ação educativa dele em ML, no entanto, gostaria de conversar com você, depois. É possível?
    Quanto a Mãe Luiza, a palavra que melhor a define é esta: resistência. Obrigada, Tânia, pela leitura atenta.

  6. Edjane Linhares 25 de julho de 2011 21:46

    Tive o privilégio de trabalhar vários anos com Padre Sabino. Uma pessoa excepcional. Tinha o dom da vida. Mãe Luiza foi um polo de intercambio riquíssimo, através de mutirões e trocas de experiências. Nesta época, uma das imagens que mais me impressionou foi o patriotismo da população. Uma boa parte descendo o morro para assistir o desfile do dia 07 de setembro, toda de verde e amarelo, segurando bandeiras. É um bairro que tem um histórico de luta. Torço para o não desfacelamento de sua identidade.

  7. Tânia Costa 25 de julho de 2011 18:09

    Continuando: E o que é pior! Agora que a área é nobre, expulsar os moradores de Mãe Luiza para uma periferia mais distante, longe da vista dos abastados.

  8. Tânia Costa 25 de julho de 2011 18:01

    Muito sábio o Padre Sabino ao fazer a defesa do povo de Mãe Luiza assumindo o que preconiza o discurso liberal.
    Muito bom seu texto. Assim conhecermos um pouco mais do que vivencia os moradores de Mãe Luiza.
    Que mais e mais pessoas se inspirem na luta do Padre Sabino e não permitam que Mãe Luiza seja transformada numa nova “Pinto Martins”, onde edifícios impedem a visão do mar.

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