Maguinho da Silva: o funksoulbrother do samba e do rock

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Paulo Ricardo da Silva Gomes, o Maguinho da Silva, tem 40 anos; natalense, filho de um agricultor e uma professora de biologia, ele despertou para a música pop ao ouvir “Michelle”, dos Beatles, na casa de um vizinho em Panatis, nos anos 1980; em 2011, lançou um dos melhores discos compostos por um potiguar, acompanhado por um timaço de músicos, como Antônio de Pádua, Gilberto Cabral, Gabriel Souto, Zé Caxangá, Marcelus Bob e Clara Pinheiro

Um estado de rebeldia sônica domina Paulo Ricardo da Silva Gomes.

Ainda garoto, coletâneas dos Beatles e de Dodô e Osmar, gravadas em fitas BASF e TDK, liberaram as primeiras substâncias fertilizantes em sua planície neural, no preparo da rotação de culturas do porvir.

Em outras seleções, Guns’n’Roses e Information Society, este com o clássico das baladinhas enfronhadas do final dos 80s, I wanna know, what’s your thinking, there are some things you can’t hide…

O menino ‘Sistema’, pois era esse seu apelido, passava o dia mergulhado na vastidão de vinis de Júnior Som, um dos templos da gravação de fitas-cassete, (cultura formadora do cabedal artístico de muita gente boa), em franco aprendizado do que viria a se tornar um discurso musical complexo, ora alegre, ora armado até os dentes.

Talvez a culpa tenha sido do pai agricultor que, ainda na infância, lhe deu instrumentos musicais, como um realejo, pianolas e baterias pequenas.

Ou da mãe, uma professora de biologia e funcionária pública talhada na boemia e na política, a ponto de levar o garoto à favela do Mosquito para mostrar um trabalho comunitário que desenvolvia e ver existências distintas da então classe média a qual pertencia.

Paulo Ricardo nasceu há 40 anos, no mesmo dia em que Noel Rosa (1910-1937) veio ao mundo, 11 de dezembro, e quis toda conversa possível com samba, para mostrar como é bom sujeito, logo após o abre-alas na indústria pop dos gringos.

Conversou tanto que o cavaquinho virou a extensão do homem como meio de comunicação, se é que os mcluhanianos me permitem a pobre analogia.

E aí, como o próprio costuma dizer, “Cheio de malícia, brother”, ele ficou pequeno para comportar aquilo tudo.

Era preciso mais.

Era preciso perambular por toda aquela planície, e um novo nome, uma persona, atrairia miradas para seus globos oculares amendoados, para o corpo franzino, de estatura mediana.

Assim surgiu Maguinho da Silva, músico natalense que, há cinco anos, lançou um disco daqueles impregnáveis em nosso juízo, coisa fina de tocar em todo o país.

Tudo sem o menor alarde por gente que precisou de Sandy e Fernanda Lima para descobrir um planeta inteiro: o da música autoral feita por potiguares.

Neste sábado (30) em que se respira fumaça do fogo aceso por uma organização criminosa que desnudou a falência da segurança pública norte-riograndense, trataremos do álbum e o pior qu’isso tudo é ficção, um dos melhores já produzidos nesta terra de Carlos Alexandre, Gilliard e Far From Alaska, desde que Mário de Andrade se encantou com Chico Antônio.

É o resultado de uma conversa que durou quase duas horas, semanas atrás, no Bardallos Comida e Arte, no centro de Natal, movida a cerveja e trans-piração.

Além de incontáveis audições das 14 faixas compostas por Maguinho.

“Eu lutei a minha vida toda para não ser nada. Não ser machista, nem feminista. Nem ser de partido algum. Como disse Fernando Pessoa, pra mim, o maior poeta que já pisou na terra, Não sou nada, não quero ser nada, me deixe ser nada”.

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Fotografia: Lenilton Lima

Entre Shakespeare e Olodum

Maguinho da Silva morou no Alecrim, em Mirassol, Capim Macio e Panatis, onde ouviu Michelle, dos Beatles, e se sentiu diferente.

“Tinha um vizinho, que era um cara à frente pra época, já trabalhava com audiovisual e tal. Eu tinha sete anos e ficava ouvindo o que ele escutava”.

A modernice britânica ganhou a companhia do Rei do Baião, trilha sonora predileta em âmbito familiar.

“O que mais ouvi dentro de casa foi Luiz Gonzaga. Meus pais eram tão forrozeiros que não tinha essa não, eles saiam pra curtir forró e eu ficava dentro do carro”.

O pai veio de Touros (RN) com 14 anos de idade, ao lado de nove irmãos. Era cantador de coco, brega e forró nas casas de farinha de Boqueirão, um dos distritos da pequena cidade litorânea, distante cerca de 100 km da capital potiguar. Índios e espanhóis constam em sua genealogia.

A mãe, além de professora e funcionária pública, era alinhada ‘à direta’ e militava como poucas – ela morreu 24 anos atrás. Negros e portugueses são seus antepassados, o que deixa Maguinho e suas duas irmãs mais novas como caso típico de brasilidade.

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Com a média de quatro shows por mês, Maguinho da Silva também é professor de inglês e português do Estado e da capital potiguar. Fotografia: Lenilton Lima

Já na adolescência, as primeiras bandas foram improvisadas com latas de óleo, sacos de açúcar e câmera de ar com arame.

“Na escola montei banda pra tocar aquelas coisas ‘força e pudor’, [Protesto Olodum, dos homônimos baianos]. Eu estudava no colégio Guararapes. Começamos a fazer bandas com latas, microfone dos cabos de vassoura. Eu morava perto do Armazém Pará, e embaixo das garagens tinha umas meninas que vinham de Manaus, que tinham outra informação, mais atualizadas e tal. Comecei a frequentar a calçada da esquina, porque eram vários condomínios, tinham vários vigias, zeladores, que passavam a noite jogando aliado, dominó, baralho. Eles vinham do interior e bebiam muita cachaça. Eu bebi muita cachaça com essa galera”.

Inglês é um idioma estudado e cantado por Maguinho desde criança – uma de suas bases criativas.

Formado em língua inglesa pela UFRN, leitor de Shakespeare no original, o professor do município e do Estado (leciona português também) costuma explorar a versatilidade idiomática em suas composições.

“A língua portuguesa é um presente que a gente ganhou dos colonizadores, é aberta, cheia de possibilidades, muito poética”.

Maguinho tem dois filhos, um deles o guitarrista Abmael Dantas, o ‘Boe Capacete’, integrante da banda Stoneglass.

“Jurei que nunca ia fazer jogo político para fazer música, para fazer cultura, tá entendendo? Sou meio riscado das rodas, das pessoas bem sucedidas na música exatamente por isso. Eu sou bocão, sei que não me dou com lobby. Não consigo me calar pras coisas. Eu lutei a minha vida inteira para não ter bandeira”.

Com passagens em grupos, como Mundo Caos e Zaratustra, o momento é de ralação nos projetos diaLOGOdub e .com si em cia – brincar com a grafia das palavras faz parte de sua proposta linguístico-musical.

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Guitarra e cavaquinho são seus instrumentos básicos, de onde tira sonoridade que vai do samba clássico, gênero estudado por ele desde a década de 1990, ao funk (americano) e a soul music

Contra a cultura sintética, do lobby e do medo, é o que diz defender.

Mas foi à frente da d malassomBROSband, em 2011, que a flecha acertou o alvo, após quase duas décadas de pesquisas sobre samba clássico e contato com parte do que existe de melhor na música potiguar.

A formação tinha Zé Caxangá (teclado, vocal, guitarra e escaleta), William de Paula (baixo, vocal, apito, sacolá), Juscelino Mizifi (bateria, percussão e vocal) e DJ Samir (scratch, mixer, laptop e CDJ).

Do tempo em que tocava em ônibus (ganhava dinheiro sem pedir) até o lançamento de e o pior qu’isso tudo não é ficção…um artista se formou por um caminho tortuoso, sem pausa para descanso.

“Não sou um cara realmente fácil de lidar, não, principalmente quando fala de trabalho. Eu amo tanto o que faço. Como sou muito ligado à política pela ligação familiar, sou muito intolerante em alguns pontos. Por exemplo, recebimento de cachê. Existe uma fama que de sou muito doido, de biritar e desabafar, explodir mesmo, o que é uma babaquice imensa. E ninguém aguenta a verdade. Tá todo mundo acostumado com lobby. E eu sou exatamente o contrário, onde passo na minha vida, na sala de aula, na periferia, sou agregador”.

O disco

Maguinho chega com funk, soul e muitos metais emprestados pelos gigantes Antônio de Pádua (trompete) e Gilberto Cabral (trombone), na abertura de e o pior qu’isso tudo não é ficção…,álbum com a direção musical de Zé Marcos Teixeira.

Detalhe: A dupla ‘metaleira’ está presente em metade do repertório.

Na faixa Me chame com (o)’ eu sou (L), salta uma atmosfera festiva, grandiloquente, como se ele andasse pela rua de sorriso aberto, troco no bolso, mão estendida a cada segundo, em cumprimento aos conhecidos.

Maguinho da Silva - Copia“Se já cheguei até aqui, não penso em voltar”, ele diz na letra escrita em união com Maxsoul.

É o mesmo que pensamos logo nos primeiros segundos de No ar, tema seguinte com sonoridade idílica e melancólica, de uma riqueza ímpar na mescla entre o violino de Henrique Menezes e o piano do supracitado Zé Marcos, instrumentista que gravou os dois primeiros trabalhos de ninguém menos que Cássia Eller.

Percebe-se até um quê de John Frusciante no solo de guitarra espacial, no meio dos quatro minutos de pura beleza.

Qualquer dúvida em deixar o disco rodar vai embora de imediato, diante da certeza de estarmos com algo especial no player.

No dia da entrevista com Maguinho, o Bardallos enchia, assim como nossos copos, ao começarmos a falar de música – ele fez um pocket show naquela noite.

“Ainda não caiu a ficha pra galera, mas eu toco Imprópria Music. É a música do mundo. Muita gente começou a botar muitos estilos numa palavra só. Eu faço isso há cinco anos. O DNA da Impropria Musica é sambarocksteadysoulbaião. Samba é a minha base. Mas eu comecei na música pop, depois radicalizei e fui pro heavy metal, música de novela”.

Se o cotidiano exige explicações rápidas, simples, por vezes, drásticas, Maguinho faz isso em letras bem construídas, harmônicas com tudo o que escutamos em e o pior qu’isso tudo não é ficção…

O samba querido está na parte final do disco.

Na metade inicial, rock e bossa (Tem a ver, com direito a flauta de Chico Beethoven) preparam terreno, para, na oitava música, o funk de Beat and Explosion trazer a participação de Chico Bomba, Jéssica Badú e Clara Pinheiro nos vocais, em tema para sacudir a carcaça de qualquer um.

“A cultura é muito mais ampla que religião, política, economia. Porque a cultura é o acúmulo, a herança que se passa de geração em geração de soluções, de necessidades, de relações, de modos de produção, de invenções artísticas. A cultura é a coisa mais linda que existe. É sinônimo de vida”.

O discurso musical de Maguinho da Silva, em seu aspecto rítmico, contornos melódicos e pegada pop atinge o ápice em Some Wonders Music.

Riff de fácil identificação, metais suingados, refrão viciante, mostram com quantas notas se faz um hit oscilante entre ska e reggae prontinho para ser executado em shows Brasil afora, ou encaixado em filmes, séries e novelas.

“A progressão discursiva de minha obra é sobre a vida brasileira. Não consigo fugir disso. Vou para um canto, vou pra outro, falo da menininha, do beijo na boca, mas essa menininha é brasileira, sempre está num contexto, numa situação sempre brasileira”.

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“Não sou um cara realmente fácil de lhe dar, não, principalmente quando fala de trabalho. Eu amo tanto o que faço. Como sou muito ligado à política pela ligação familiar, sou muito intolerante em alguns pontos. Por exemplo, recebimento de cachê […] E ninguém aguenta a verdade. Tá todo mundo acostumado com lobby. E eu sou exatamente o contrário […]”
Isso mesmo, Maguinho, o Caribe teve colonização parecida com a do Patropi, basta ver as semelhanças dos diversos gêneros presentes aqui e em Cuba – ambos fermentados no mesmo caldeirão.

O disco e o pior qu’isso tudo não é ficção…levou dois anos para ficar pronto, e só saiu graças ao Edital Núbia Lafayete, da Fundação José Augusto.

“Essa é minha grande angustia. Por questões políticas. Eu reclamo há muito tempo, mas minha voz fica sozinha”.

A espera foi providencial – a lista no auxilio luxuoso ainda inclui Toni Gregório, Marcelus Bob, Gabriel Souto, MC Priguissa, dentre outros.

Caso contrário, seriamos privados de Avenida da Canção, um samba de refrão belíssimo, daqueles que nos pegamos dias e mais dias com a melodia frouxa em um assobio ou na letra cantada em viva voz.

“Vou cantando assim mesmo com alegria”, entoa Maguinho, cuja desenvoltura no cavaquinho vale menção (destaco os arranjos de Que Fantasia! e Se é para chorar!?).

Na onda vigente do trabalho autoral feito nesta terra outrora controlada por franceses, holandeses e portugueses, o disco de Maguinho da Silva, lançado cinco anos atrás, merece resgate por quem deseja se divertir com música e ter proximidade com o autor, vê-lo em ação com frequência, quem sabe bater um papo.

E como merece.

Fotografia de capa: JOHN NASCIMENTO

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