Mahmed em Barcelona: Walter Nazário cruza céus e mares com seu post-rock

Fala-se muito que Natal é das cidades mais poéticas do Brasil.

Esqueça o Morro do Careca e a enseada de Ponta Negra; os quilômetros de praias da Via Costeira; a panorâmica encabeçada pela combalida Fortaleza dos Reis Magos.

A questão é sobre a arte de comunicar uma emoção com verbo musical.

Como poucos lugares neste país, a capital potiguar cultua seus fazedores de poesia.

Culto revigorado por poemas sem letra impressa ou declamados em viva voz, pois, para quê voz, se baixo, guitarra, sintetizadores e bateria criam versões contemporâneas de rimas, estrofes e métricas tão ou mais assimiláveis?

Basta escutar a proposta do quarteto Mahmed, grupo recém-confirmado como atração do Primavera Sound, um dos principais festivais da Europa, realizado entre os dias 01 e 05 de junho próximo em Barcelona, na Espanha.

Mahmed_sobre a vida em comunidadeEles concluíram Ciao, Inércia, segundo EP da banda, sequência do disco Sobre a Vida em Comunidade (imagem), classificado em listas nacionais diversas como um dos melhores de 2015 – inclusive, nalgumas, à frente de Gal Gosta e do pernambucano Siba.

Um show marcado para sexta-feira agora (25) no Labiata (misto de bar e bistrô, em Ponta Negra) será a estreia das três novas faixas, cujo título remete a uma obra do artista plástico e multi-instrumentista Daniel Nec, da banda Zurdo.

No pacote de novidades, também tem um projeto de financiamento coletivo no Catarse (www.catarse.me/mahmed) para esticar a apresentação na Catalunha por outros palcos europeus.

“A gente não podia bater lá, num bate e volta de final de semana, pagando oito mil reais de passagem. Tínhamos que correr atrás de fazer turnê, e isso envolve um corre muito grande, o maior investimento que a banda está fazendo”.

Foi o que disse Walter Nazário da Silva Júnior na tarde de ontem (22), em um papo na varanda de sua casa, em Lagoa Nova.

Aos 26 anos de idade, ele é o expoente de uma sonoridade que rendeu duas conquistas individuais no Prêmio Hangar (melhor compositor em 2014 e produtor, no ano passado), e dois com o grupo (melhor videoclipe e banda do ano, ambos na temporada concluída em dezembro último).

Filho de uma contadora e um administrador aposentado, Walter é historiador e professor do Ensino Médio em uma escola particular, onde mantém relação de cumplicidade com alunos da mesma geração.

“Eles gostam [do som do Mahmed], mas talvez achem meio morgado. Acho que se eu ouvisse esse tipo de música aos 14 anos eu também ia achar morgado. Já pensou o cara ouvindo System Of a Down e escuta uma música dessa de post-rock, guitarrinhas sem voz? Mas eles dão apoio. Compram camisa, adesivo. Já vi uns três, quatro nos shows. Temos uma relação muito amigável”.

O post-rock citado foi expressão cunhada pelo crítico e jornalista americano Simon Reynolds, autor do ótimo livro Beijar o Céu (sobretudo os ensaios Doente ou Doce: Hip Hop versus Indie Rock, Pearl Jam versus Nirvana e O Fim da Infância, sobre o Pink Floyd).

Seria um experimento de guitarras limpas, com a eletrônica em efeitos hipersensoriais, em tons suaves, como se o rock progressivo e o cool jazz dessem as mãos e flutuassem dentro da mente do ouvinte.

Dos livros de história, quase nada saltou para sua música.

“Na universidade, eu acabei caindo no Deart (Departamento de Arte da UFRN), pagando umas matérias, como cinema. Isso pode ter influenciado um pouquinho. O interesse por história da arte, por exemplo. Mas isso é muito pouco. O academicismo é muito pouco poético, ele castra muito a poesia. Você lê três textos da faculdade e vai escrever poesia depois? Não dá. Não funciona pra mim”.

4 (4)Embarque no portão 1

Foi um primo quem acendeu o fósforo e incendiou a cabeça do então menino de 13, 14 anos, ao transmitir os primeiros acordes em um violão e lhe presentear com revistas de cifras musicais.

Walter sorri ao lembrar o repertório.

“Ele me ensinou a ler aquelas revistinhas de cifras e, a partir daí, foi como se dissesse: ‘Vai que o mundo é teu, meu filho’. Tinha uma do Engenheiros do Hawaii”.

Solto numa infinita highway, longe demais das capitais, o adolescente assistia MTV e flertava com algo mais sério, prestes a se familiarizar com Come As You Are e Smells Like Teen Spirit, do Nirvana.

A crueza de Kurt Cobain o nocauteou.

Logo as primeiras bandas de hardcore e power violence (dispensa tradução) foram armadas, e shows começaram a talhar o músico apontado por meio mundo como a revelação do circuito alternativo natalense.

“Quando comecei a tocar em banda e viajar, isso mesmo no hardcore, já comecei a ver que poderia ter alguma coisa. Mas mudou mesmo quando pintou o Mahmed, quando lançamos o EP [a estreia foi com Domínio das Águas e dos Céus, em 2013] e veio muita gente comentando, gente de fora, sites, blogs. Saiu até num site russo. Como o povo chega nisso? Sei que tem a internet, mas aí vi que poderia ter valor. Mesmo assim sempre pensando: ‘É instrumental, é difícil. Não vamos viajar muito. Vamos botar o pé no chão”.

Múltiplas vozes

Certa vez apresentei The Budos Band e Hypnotic Brass Ensemble (hoje, um balaio de hip hop que me desagrada demais) a um amigo.

Ambas instrumentais, com metais nervosos, muito groove, riffs pra todo lado.

Aí ele soltou:

“O cara canta quando?”.

É de lascar, pensei.

É o pensamento da maioria das pessoas, na hora em que escuta rock instrumental.

O nome de Walter Nazário aparece em duas outras bandas: o Igapó das Almas e o Esquizophanque.

E em trilhas sonoras de curtas-metragens de diretores potiguares – neste momento, ele está envolvido em dois espetáculos, um de dança, outro, circense.

“Por que a necessidade de voz? A gente tem uma banda que lança essa dúvida sempre nas pessoas, porque o instrumental é pautado no virtuosismo, mostrar qualidade no instrumento. E isso nem sempre privilegia o ouvinte. Às vezes privilegia o ego de quem está fazendo a música. É lógico que todo mundo gosta de ouvir um Miles Davis, um Coltrane, mas também há possibilidades de fazer música instrumental trabalhando outras coisas que não o virtuosismo. Mas o conjunto, a arquitetura da música, a sobreposição de camadas. É um trabalho que passa muito pelo estúdio, colocar cinco, seis faixas de tecladinhos fazendo uma coisa, dando ao ouvinte outra experiência. Vozes que não são vozes humanas”.

mahmedVerão em Barcelona

O Mahmed será a segunda banda natalense a tocar no Primavera Sound – ano passado foi a vez do Camarones Orquestra Guitarrística.

O convite foi uma surpresa.

“Terminanos 2015 achando que 2016 seria um ano de ressaca, por tudo que a gente fez. Lançamos um álbum, fizemos duas turnês, uma delas bancada por conta própria. Pensamos: ‘Então será um ano de ressaca, tamo de boa, vamos compor e fazer um CD novo. Vamos aquietar um pouco’. Aí no começo do ano, um dos sócios da Balaclava [gravadora paulista] o Fernando Dotta, passou o Réveillon aqui e aproveitou o momento e falou: ‘Cara, encaixei vocês no Primavera’. Porra, a gente fez festa e tudo”.

O evento garante palco, som, visibilidade, menos passagens aéreas e hospedagem. Por isso, o flamenguista Walter Nazário, que um dia pensou em chamar o Mahmed de Zidane (ele diz ser um dos traumas da banda, a escolha de títulos; o definitivo saiu de uma brincadeira com Godzilla Mamede, dita por um amigo), destaca a importância do apoio no Catarse.

Pacotes entre dez e cem reais garantem download do EP Ciao, Inércia, CD e compacto em vinil e obras do artista Flávio Grão.

Em poucos mais de 24 horas do projeto na plataforma, de um total de 45 dias, eles atingiram 9% dos R$25.735,00 almejados.

“Minha ideia é sempre pensar em qual o próximo CD, qual o próximo ensaio, show, sem pensar muito nessas coisas. A banda é uma empresa que não sai no negativo, mas não dá lucro. Tudo o que ganhamos, investimos para a coisa girar e daqui a dois, três, cinco anos, quem sabe, poder colher o fruto”.

Fotografias: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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