Mais Eclética do que nunca, precisa como sempre

Detalhe da capa do novo álbum de Marisa Monte. O clipe da música Ainda Bem atingiu 700 mil visitas no YouTube em duas semanas

Por Arthur Dapieve
NA BRAVO

Em seu novo CD, a cantora Marisa Monte volta a atirar em várias direções – e acerta a maior parte dos disparos

Na metade final dos anos 80, a iniciante Marisa Monte viu-se perseguida por um rótulo: “cantora eclética”. Isso marcava tanto quem, como ela, era capaz de cantar Titãs, Candeia e Kurt Weill com personalidade quanto quem, como dúzias de intérpretes na cola dela, atirava em todas as direções para ver se acertava em alguma. Desde então, sua carreira pode ser entendida como a tentativa de torná-la uma “cantora focada”. O auge disso foram os dois álbuns lançados juntos em 2006, Universo ao Meu Redor e Infinito Particular. Carecia escutá-los com muita, muita atenção para notar diferenças entre eles.

O novo disco de Marisa, hoje com 44 anos, felizmente rompe com a dupla de antecessores. Cada uma das 14 faixas de O que Você Quer Saber de Verdade tem caráter próprio, o que dá movimento ao conjunto. E meia dúzia delas têm méritos que logo saltam aos ouvidos. Divulgada no YouTube no final de setembro, a música Ainda Bem atraiu em duas semanas 700 mil visitas. Tanto quanto o belo clipe em preto e branco dirigido por Dora Jobim, no qual Marisa dança com o lutador Anderson Silva, a razão de tanta audiência é a música em si, claro.

ZONA DE CONFORTO POP

Parceria de Marisa com Arnaldo Antunes, Ainda Bem tem um ar latino, no qual sobressai o violão do argentino Gustavo Santaollala (compositor da trilha de Diários de Motocicleta, o filme de Walter Salles Jr.). No disco, ela vem em seguida a Lencinho Querido, versão em português para o tango El Panuelito, outrora cantado por Dalva de Oliveira. Gravada em Buenos Aires com o grupo de veteranos Café de Los Maestros, criado por Santaollala, a faixa tem uma dimensão grandiosa e melancólica, que arranca Marisa da zona de conforto pop, na qual ela tinha se instalado nos últimos dez anos.

Porém, até quando mantém pé e meio no pop, o novo disco o faz com sentimento. Depois, de Marisa, Arnaldo e Carlinhos Brown, ou seja, os Tribalistas, é um roquinho Jovem Guarda que ficaria bonito no começo da discografia de Roberto Carlos. O mesmo pode ser dito de Aquela Velha Canção, dela com Brown, que tem um achado na letra: “Não vou te mandar pro inferno/ Porque eu não quero/ E porque fica muito longe daqui”. Já O Que Se Quer, com Rodrigo Amarante, faz pensar no trabalho “étnico” do grupo norte-americano Beirut. E Seja Feliz, com Antunes e Dadi, bate mais forte para falar de nossa insignificância no Universo. Insignificante é palavra que não se aplica ao novo CD de Marisa Monte.

O ÁLBUM

O que Você Quer Saber de Verdade (EMI), de Marisa Monte. Preço Médio: R$ 29,90.

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