Mais que nunca, é preciso cantar

Querida Marina:

Você é linda desde o nome que se escolheu. Seu marido não precisa ficar irado comigo: eu me sinto, agora, seu pai, seu irmão, seu filho. E a abraço para trocarmos nossas dores e esperanças.

Como é bonito se dizer, Marina! Como é bonito dizer que levou porrada!

Como é bonito admitir que se deu porrada em si mesmo!

Sim, o aborto clandestino agrava o que já é grave. Sim, a auto-culpabilização é caminho fácil para se esquecer que há uma sociedade a ser mudada.
Quando você diz “Ao final, ele embrulhou aquilo tudo no papel e não lembro se colocou num cesto de lixo ou outra coisa qualquer, acho que guardou no forro do teto.”, o drama está escancaradamente posto: que fazemos de nós, colocando-nos nas mãos de quem nos trata como lixo? que fazemos de nós, entregando-nos como lixo? Porque nossos filhos, abortados ou não, são nós!
Você sabe que aquele filho sempre existirá, como existiu antes da ida à enfermaria. Não no sentido religioso da alma. Mas no sentido muito humano do espírito (talvez Cultura). Existirá não como culpa e sim como lição de vida.

Somos contraditórios e incompletos. Amamos sem nunca saber por inteiro o que é amar. E viver sem amar é muito pior que as dores do amor.

Eu amo você, Marina.

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Ilustração: Henri Matisse. Music (Sketch). 1907]

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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