Mais uma do caso Eloá

Desta vez publico artigo de uma professora indignada com a cobertura da mídia a respeito do caso da adolescente Eloá. Ana Maria Peterson é mais uma a criticar a postura da apresentadora Sônia Abrão, da RedeTV, e Datena, da Band ou da mídia em geral em taxar Lindemberg Alves como seqüestrador (isso é inegável!, criminoso e desequilibrado (este último adjetivo, pra mim, também o vale, embora não seja papel da imprensa aplicar qualquer adjetivação de julgamento). O artigo também foi retirado do Observatório da Imprensa:

“Por que a imprensa tem tanta dificuldade em fazer autocrítica? É claro que essa pergunta não me surgiu hoje, mas o que me fez escrever foi o papel da imprensa no seqüestro da estudante Eloá Cristina Pimentel.

Na segunda-feira, o Brasil recebeu a notícia de que um rapaz de 22 anos estava fazendo refém sua ex-namorada, de 15 anos. Foram inúmeras reportagens sobre Lindemberg Fernandes Alves, um rapaz trabalhador, que não bebe, não fuma, tem dois empregos para ajudar a família.

Com o passar das horas, o rapaz foi sendo narrado como um criminoso seqüestrador desequilibrado. Diante disso, uma gama de profissionais passou a ser entrevistada: psiquiatras, advogados, especialistas em segurança, psicólogos, criminalistas foram submetidos a perguntas do tipo “o que o rapaz estava pensando quando entrou no apartamento?”, “qual o objetivo dele ao colocar uma camisa do São Paulo na janela?”. E por aí ia um festival de sandices.

No segundo dia, o rapaz falou com uma emissora de TV e o espetáculo ficou mais dantesco quando apresentadores José Luiz Datena e Sonia Abraão chegaram a bater boca no ar para decidir quem tinha a equipe de reportagem mais competente, quem fazia um jornalismo mais ético.

É possível?

A partir daí, entrevistados, apresentadores, pastores passaram a falar com o rapaz por intermédio da televisão. Ao mesmo tempo, vários comentaristas de segurança (nova denominação para repórter policial) começaram a repetir a seguinte frase “este rapaz está fazendo um passeio pelo Código Penal”, enquanto outros estimaram a pena dele em 40 anos.

Considerando que no contato telefônico o rapaz deixou muito claro que seu maior medo era ir para prisão e levar tiros, segundo suas próprias palavras, não seria uma questão ética evitar comentários sobre a punição que ele iria sofrer ao sair de lá? Era de conhecimento de todos que ele estava assistindo televisão e ouvindo tudo. Não seria prudente evitar esse tipo de comentário com o objetivo garantir o sucesso da operação?

Em relação à imprensa, qualquer questionamento de seu papel nisso tudo é respondido pela seguinte frase: “Estamos fazendo nosso trabalho”. Vocês acreditam que é possível fazer jornalismo nos meios de comunicação de massa de forma diferente, mais humana e com mais respeito?

No meio de uma agonia como um seqüestro, cárcere privado, ou o ” mano que pegou a mina para provar seu amor”. Muita gente ficou na expectativa do desfecho. Diante do final mortal desse fato (estou escrevendo as 14h54 de sábado, 18, e Eloá não foi dada como morta, mas viver em estado vegetativo é estar viva?) abriram-se várias rodas de conversas, dentro delas especialistas em segurança, promotores, psicólogos, o diabo a quatro. Coletivas sendo cobertas, frases feitas, questionamentos constantes e um bocado de lamentos e condenações.

Afinal, nessa muvuca alguém vai confrontar o trabalho da imprensa? Alguém vai “cortar na própria carne”? Alguém vai admitir que não tinha preparo e mesmo assim falou com uma pessoa desequilibrada que mantinha reféns? Alguém vai tomar do remédio amargo do fracasso e vai dizer que não deveria ter dado tanta notoriedade para um rapaz que estava ameaçando pessoas? Alguém vai admitir que nessa infindável procura por “furos” a dita ética jornalística foi pras cucuias? Alguém admite que com o estandarte do “Essa é a função do jornalista” todos os limites éticos, morais, pessoais, civis, políticos, econômicos que sejam respeitados ou/e desrespeitados são coisas justificáveis?”.

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