Mal estar contemporâneo e autodestrutividade

Por Márcio de Lima Dantas

Este país te mata lentamente
Sophia de Mello Breyner Andresen

A poeta mineira Adélia Prado tem um poema chamado “Tarja”. Discorre sobre a seção de uma revista que ela assina; diz que nunca deixa de olhar o nome dos mortos, ali apostos por parentes, demandando orações. Engraçado que eu também tenho a mania de sempre dar uma olhada naquela página da Tribuna do Norte que funciona como espécie de obituário. Eu sei que alguém pode até achar meio mórbido, que é negócio de necrófilo. Eu não me importo muito não, pois me quedo para pensar os mortos – detenho-me sobre os retratos dos defuntos, tentando captar-lhe um ou outro traço do temperamento -, na verdade, tento é compreender mesmo os vivos. Não tenho grandes problemas com os que se já se foram. Estão em paz, meus mortos, seus mortos: “na morte nos encontraremos”, diz outra mulher poeta, Henriqueta Lisboa. Assim os deixo e assim os quero.

Vamos voltar aos vivos, são eles que nos assombram. É impressionante a quantidade de gente com menos de cinquenta anos que se apresenta à morte. Bem mais cedo do que o esperado. Muitos rostos de jovens são lamentados pelas famílias. Até parece que a cada dia se morre mais cedo. Já se disse que a história se repete de maneira irônica, pois na Idade Média vivia-se pouco, talvez uns quarenta anos, quando muito. Hoje temos toda uma parafernália técnica e médica possibilitadora do prolongamento da vida, no entanto, fenecemos perante as vicissitudes e o estresse cotidianos, que a todos acomete, manifestado através de dores sem causa ou cansaços físicos e mentais, persistentes, sem que haja havido esforços que os justifiquem. Nunca se tomou tantos energizantes como nos nossos dias.

Vejam bem o paradoxo: a cada ano aumenta a média de vida no país, em contrapartida, uma parcela da população tem a vida encurtada devido a toda uma série de fatores e que podemos resumir numa palavra bastante conhecida de todos: infelicidade. Sim, somos quase todos infelizes, quer devido as implicâncias do social, quer sejam embates interiores que nos judiam e para os quais não temos solução.

Penso que o tudo isso se deve a um fator integrante do espírito da época e que aqui gostaria de nomear de autodestrutividade. Sim, falo de um fenômeno não difícil de se constatar no dia a dia, aquele que faz com que uma pessoa se volte sistematicamente contra si mesma, buscando por meios vários razões materializáveis para, de alguma maneira, se destruir. Freud não dizia que o estômago persegue a úlcera? Quem sabe possamos pensar em formas sutis de suicídio. Exato, quero falar daquele perverso conluio entre forças coletivas de eliminação de indivíduos um pouco mais frágeis que os demais seus pares de embates para com o destino e forças subjetivas incontornáveis na superação dos obstáculos que nos acometem na vida de todos os dias. Na aura de costumes e mentalidades que nos entorna atualmente, TANATOS (instinto de morte) assume o lugar privilegiado daquele que distribui as cartas do jogo da Fortuna. Senhor do nosso tempo, Tanatos se diverte mascarado na escansão do calendário festivo profano-religioso, misturado aos sorrisos, presentes e ritos.

Um mal estar que se expressa em infindáveis formas: pessoas obesas, alcoólatras, banditismo marcado pelo puro ato gratuito, ausência de medo do fracasso, e que se resume num “nada a perder”, mesmo por que o que antes se tinha como valor, a pouco e pouco se extingue. Os traços que individualizavam uma pessoa, a pertença a uma instituição, o orgulho de integrar um clube, o casamento, é um tédio absoluto, sustentando-se na programação insossa e vulgar da televisão, justificando-se equivocadamente através dos filhos (“minha única alegria”; “a alegria da minha vida”; “minha festa”), que, por sua vez, mesmo adultos, estão a depender dos pais e dos parentes, numa atitude de fugir à responsabilidade de ganhar a vida. Falo daqueles indivíduos já com mais de trinta anos, mas que permanecem dependendo financeira e afetivamente do pais.

Só para ficarmos num exemplo simples e bem ilustrativo, citaria o fato de uma grande parte da população apresentar as taxas do sangue alteradas. Algumas pessoas não dão a mínima para esse fator de risco, pouco se interessam em fazer uma dieta ou um tratamento mais sério. Há uma entrega absoluta, impotência, que se expressa num “tanto faz”, de trágica e triste indiferença. Capitulação perante as insistentes negativas da vida.

Essa infelicitação generalizada, conduzindo as pessoas a todo um processo de autodestruição impiedoso e implacável, perdura em muitas dimensões do cotidiano, indo da ausência de condições econômicas para bancar um padrão de vida digno até um impulso de encontrar uma desculpa para justificar o fracasso de um relacionamento interpessoal. Quase ninguém se compraz com sua vida. Poucos têm um projeto no qual justifique sua existência, sendo assim, a vida se transforma num fardo fastidigioso. Por isso, a presença entre nós daquele tipo de pessoa destrutiva, indivíduos que enfatizam os defeitos e o lado ruim das coisas. Estão carcomidos por dentro, passam a macular o que está fora. Falo daquele tipo de gente que é incapaz de fazer um elogio e adora “soltar uma piada”, rebaixando as coisas dos outros. Falência generalizada de tudo por causa de todos, disse Fernando Pessoa, lá no começo do século.

Em suma, como já apontei acima, a autodestrutividade como componente do mal estar contemporâneo se deve a um perverso conluio entre forças advindas do coletivo, com suas implacáveis cobranças, preconceitos e desdém absoluto para com valores humanistas (passando por cima de tudo e de todos, impiedosamente) e obscuras forças internas ao indivíduo, encaminhando-o (in)voluntariamente ao que o poeta Camões disse: Quão fácil é ao corpo a sepultura. Mesmo por que logo o morto será esquecido no torvelinho permanente da vida dos vivos. Restando o 2 de novembro para assoprar a labareda da ferida encoberta por tanta poeira.

Se não me engano, acho que é Henriqueta Lisboa que se refere à poesia, àquela mais íntima, como serva da esperança. Francamente, gostaria muito de pensar como a poeta, porém meu cepticismo não permite, uma vez que a realidade nos mostra todos os dias que a vida é uma brevetée, sans garantie de Dieu.

Professor de Literatura Portuguesa da UFRN

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 20 de Junho de 2014 11:13

    Ler textos, como esse de Márcio de Lima Dantas, devia ser lei. A Literatura Norte-rio-grandense já existe. Não vive mais de esperanças.

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