Maldita infância

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Não tenho uma foto da infância para o meu perfil porque nem tive infância que mereça isso. Me lembro poucas vezes se tive alguma felicidade, mas solidão tive muita. A vida nunca me abriu os braços como pensei que fosse. Tive de bater nela com a impiedade dos açoitadores. A vida merece o tronco.

Envelheci assim que nasci. Saí do ventre com a mesma cara que tenho hoje e não escondo isso de ninguém, por isso, não tenho fotos para o meu perfil. Fui mais amigo do gado do que das gentes que cercavam o mesmo pasto e os velhos currais. As vacas sim, elas têm a paciência divina. Talvez deus fosse uma vaca e o homem seu animal de estimação faminto.
Deus nunca esteve onde eu estava, disso me lembro bem. Nunca levou meus braços, nem minhas pernas, ou meus olhos que tantos gostam, mas tirou de mim não sei o que, que não encontro mais. Tirou de mim a meninice e depois secou a lagoa onde eu pescava os ninhos dos socós. A lagoa secou e a água nos foi dada por empréstimo de estima, verde, embora doce, mas verde do mesmo tanque onde bebiam as cabras.

O meu avô era mais menino do que eu, embora nunca brincasse. Estava sempre andando nas pressas mais ligeiras. Foi nos corredores que me ensinou a ralhar e a ser menos sereno como sou agora. Mas ele me amava de uma maneira que ninguém nunca amou. Amou-me espiritualmente como os velhos índios americanos.

Se detestam minha cara a culpa é minha. No lugar de meninice, apreendi a ranzinza dos velhos da minha casa. Nunca fui menino e, portanto, não sei brincar de meninança nem de universidades. Eu sou um velho apache sem rebanhos e sem toga, aguardando o momento de estancar meu tempo no tempo certo ou de ter a certeza de que estou aqui, mas já não deveria.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 10 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 19 de Outubro de 2012 11:47

    Meu amigo, estava com saudades dos seus textos. Voltou e voltou com força! Não sei fazer um comentário à altura do que aqui se escreve ou é postado, sei lá…Não tenho palavras para comentar os poemas de Lívio, Jarbas, Jairo, Olavo, Ednar, Nina. Enfim….acho que todos no blog escrevem muito bem, se assim não fosse com certeza não estariam aqui (eu sou uma exceção) rsrs – por isso, só me resta escrever palavras do tipo: massa, muito bom, gostei, etc. Mas com certeza são sinceras como os comentários de quem entende do assunto. Como disse um amigo: O importante é sentir o texto! Parabéns José de Paiva! Texto massa!!!

  2. Ednar Andrade
    Ednar Andrade 19 de Outubro de 2012 12:46

    Ô!!! ….

    Que lindo é ler verdades….Escrevas mais.Vou ficar esperando>>

    “Eu sou um velho apache sem rebanhos e sem toga”,
    Dissestes.

    E eu sei o que é ser uma velha índia.Não é doce feito cana ,nem fresca como os lagoas que secam……………

    Bjs! 🙂

    Beijo!

  3. José de Paiva 19 de Outubro de 2012 15:10

    Obrigado Anchieta e Ednar.

  4. Edna Araújo 19 de Outubro de 2012 16:44

    Parabéns Amigo meu, lindo texto gostei demais…

  5. Regiane 19 de Outubro de 2012 17:22

    Me encanta a profundidade…. vc pega na mão do leitor e faz ele sentir a ferida, a ferida do narrador… daí, a gente que lê, sente as mesmas sensações e, eu, particularmente, mergulho nessa intimidade que se escancara diante dos meus olhos e desejo imensamente dar-lhe a infância que vivi…. te amo!

  6. Izaíra Thalita 19 de Outubro de 2012 18:04

    Lindo. É bem um sentimento que se percebe em cada frase do texto. Parabéns!

  7. Aurea Zavam 19 de Outubro de 2012 18:55

    Gostei muito da pungência do (belo) texto. Parabéns!
    🙂

  8. Gilvania Araújo 19 de Outubro de 2012 19:23

    É difícil analisar seus textos com olhar técnico, pq é impossível não se envolver nele. Principalmente quem teve infância no sertão, vendo esse cenário que vc narra com tanta maestria. E de alguma maneira passamos a conhecer um pouco os escritores a partir das suas obras. Felizmente, esse meio duro não nos tirou esse escritor que nos presenteia sempre com textos desse nível. Gostei demais! Parabéns!

  9. Eliana Klas 19 de Outubro de 2012 22:19

    Pois é…e Deus está lá seu velho apache, vestido de vaca, fazendo-se bicho de estimação dela, só pra ser a lama verde que tanto te doeu.

    Texto dolorido, sentido, sofrido, mas sobretudo vivido.
    O mais quero falar on-line.

    Um beijo, urubu-mor.

  10. Danclads Andrade
    Danclads Andrade 19 de Outubro de 2012 23:14

    “Chegou a minha hora de vingança,
    Tu mataste o meu tempo de criança
    E de segunda-feira até domingo,
    Amarrado no horror de tua rede,
    Deste-me fogo, quando eu tinha sede;
    Deixa-te estar canalha que eu me vingo”.

    (Augusto dos Anjos).

    Paiva, este texto é forte, denso e verdadeiro.

    Belo, texto!

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