Malemolência

Por Lúcia Guimarães
O Estado de S.Paulo

NOVA YORK

Pela primeira vez vi um termômetro registrar 46 graus centígrados numa rua em Nova York, no meio de uma tarde ensolarada. O calor é tão forte que, sob instruções da prefeitura ecologicamente correta, escrevo num quarto escurecido por cortinas para evitar que a luz do dia aumente a demanda de energia do ar condicionado.

A canícula impõe uma letargia nesta cidade de gente apressada e assertiva. Você pede um pãozinho integral, o caixa se confunde, traz uma bisnaga e você aceita, para conservar energia. Depois de dois quarteirões de calçada tórrida, sente uma necessidade irresistível de comprar o que não precisa na refrigerada loja de ferragens. Como passei tanto tempo sem um alicate médio?

Um amigo que tem casa com piscina me convidou para visitá-lo, mas, depois de vários dias de temperatura alta sobre a água parada, pensei que tivesse mergulhado numa sopa ao ar livre.

Para levantar o moral, lembro que podia ser pior. Por exemplo, podia morar no Arizona, onde o termômetro bate 50 e a xenofobia esquenta a temperatura social.

Se você quiser irritar um morador do Arizona, faça gracinhas surradas sobre o clima do Estado como, está tão quente que as galinhas botam ovo cozido. Mas, mesmo sob uma calota de ar quente que estoura recordes no Arizona, há quem encontre tempo, no Estado de John McCain e futura residência de Sarah Palin, para protestar contra uma palavra: haboob. É tempestade de areia em árabe. Graças a tempestades que provocam ventanias, a areia do deserto no centro do Arizona tem ido bater nas cidades, cobrindo tudo de partículas marrons.

Os telemeteorologistas estão sendo espinafrados porque ousaram designar o que se passa em Phoenix com a mesma palavra usada para descrever o que acontece no Saara, haboob. Segundo o New York Times, um irado espectador local perguntou: como é que os nossos soldados vão se sentir, voltando para casa e ouvindo uma palavra que é usada no Oriente Médio?

As palavras são expressivos sinais meteorológicos. No Arizona, por exemplo, a previsão é de emburrecimento escorchante com pancadas de isolacionismo.

O calor induz à interação monossilábica. Mas há uma diferença enorme entre ser lacônico e abreviado. Quando Felipe da Macedônia se armava para invadir Esparta, lá pelo ano 300 e tantos a.C., escreveu aos juízes espartanos: “Se eu marchar sobre a Lacônia, vou arrasar suas cidades”. Recebeu a seguinte resposta: “Se”.

Hoje, receberia um torpedo: “KKKK!”. (rs)

Na semana passada, estive em companhia de um interlocutor não só loquaz como engajado. Com o ar condicionado a toda, o romancista Gary Shteyngart (veja entrevista para o “Sabático” de 23 de julho) teve energia para denunciar um mundo em que a presença física está sendo abolida e olhar nos olhos é uma forma de assédio.

O russo-americano Shteyngart, autor de Absurdistão e do recente Uma História de Amor Real e Supertriste, que recomendo com entusiasmo, tem um ouvido afiado para o diálogo da geração digital. Ele me conta que, numa universidade nova-iorquina, há um estranho curso de orientação para calouros. É uma espécie de fisioterapia verbal para quem só consegue se comunicar em torpedos ou via Facebook. Privados de seus smartphones, os alunos vão para a frente da turma e têm que aprender a se apresentar. “Eu sou fulano, nasci em tal lugar, vim para cá por tal e qual motivo.”

Houve um tempo em que éramos julgados, em parte, pela capacidade de interagir com nossos companheiros de espécie biológica. “Hoje”, lembra Shteyngart, “celebramos esquisitões antissociais como Mark Zuckerberg.” Não saber se expressar virou um charme. É o autismo verbal como virtude.

A obsessão com a mídia social faz com que, o primeiro impulso, ao visitar as cataratas do Niagara, seja clicar a imagem e jogar na mídia social. E em seguida responder aos inúmeros tweets de quem viu a foto. O que importa o espetáculo real da natureza formidável, a sensação física da água respingando no rosto? Aposto que esse turista imaginário continua absorto no celular e não nota que já está de volta a bordo do ônibus, tão ocupado que está em registrar o que não viveu.

Há restaurantes nova-iorquinos proibindo os comensais de fotografar seus pratos, uma prática grosseira que se tornou comum. O sabor do peixe não é nada, comparado ao gosto pelo exibicionismo gastronômico. Os sentidos deixam de guiar a percepção do mundo, hoje, para muitos, governada pelo status no Facebook.

O romancista Shteyngart diz que nasceu analógico e vive emigrado no mundo digital. Ele não se refere à tecnologia e sim à cultura que despreza a palavra. Espero que haja uma reação a esse estado de coisas mas, enquanto o termômetro não baixar, t+. (*)

(*) Até mais.

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