Malfazeja Fiama

Por Eriberto Cirilo de Santana

Quem de bom grado poderia posicionar-se em defesa de alguém que contravenha tão explicitamente a simplicidade que é comum à lógica? – Quem poderia levantar a voz e, como arauto, anunciar aos quatros ventos seu posicionamento a favor de quem arquiteta a existência de sutilezas num universo de coisas brutas e de dura cerviz? – Fiama nos permite uma leitura que a coloca como o sujeito causador de tais inquietações, alguém sobre quem essas indagações são formuladas.

Sua poesia apresenta-se com uma complexidade que é capaz de rechaçar, a primeiro momento, leitores desavisados que costumam ou acostumaram-se buscar na poesia clássica temas e assuntos já cristalizados por meio de pactos previamente convencionados, condicionadores de um conhecimento inventivo limitado, ainda que pretencioso. Nela a ordem comum dada aos escritores de ofício é quebrada, já que, de forma mais geral, a experiência acumulada pelo poeta o conduz a uma produção mais condensada e complexa ao passar do tempo. Em contra mão a esse sentido, Fiama inicia sua obra ostentando um alto grau de complexidade onde se utilizará de temas metalinguísticos, numa difícil relação criativa da coisa, do ser, da palavra por elas mesmas. Ainda mostrando-se intimista – porém não lírica, trata do homem como objeto marginal em favor de um enaltecimento da natureza e do espaço bucólico. Num outro momento, considerado como final, escreve poesias mais leves e acessíveis ao leitor comum, fase em que é compreendida pela simplicidade que assume frente às temáticas que perpassarão os versos dos seus poemas. Curiosamente parece ser essa a fase menos interessante na obra da poeta.

Vemos que não é um exercício fácil apreender o que está perpassado na escritura de Fiama, sobretudo se dividirmos sua produção literária em fases e nos atermos à primeira delas. Aqui tudo parece mais duro, concreto, um universo metalinguístico encharcado de introjeções que nada refletem, senão aquilo que é distante e desconhecido em cada um de nós. A quebra de padrões, quanto à forma das suas composições, já demarca um estilo que a faz diferenciada dentre os demais escritores, bem como lhe dissocia de qualquer escola ou corrente literária cabível para o momento do qual era contemporânea. Não há sintaxe perfeita, não há ordem nas sentenças, tampouco há disposição do texto em obediência às regras convencionais; tudo em Fiama remete a um grande paradigma de estado de ser, de estar e de poder depreender a concretude das coisas pelo que elas são e não, meramente, pelo que nossos sentidos possam vir a experienciar simplesmente. Dessa forma, Fiama, quase sempre, se passa por incompreendida, ilegível e malfazeja, uma vez que não se deixa entender sem que antes requeira de seu leitor um aprofundamento de espírito capaz de depurar a essência das coisas que não são tidas como instrumento ou objeto da poesia tida como clássica.

Assim nos é posto a situação que nos permite vislumbrar o novo – que nos causa estranheza; o diferente – que nos perturba pela falta de simetria; o distante que nos frustra pela não obtenção do objeto desejado. Tudo isso nos chega como alimento sólido e não, meramente, líquido onde todo e qualquer ser imaturo ou não é capaz de saciar-se sem problemas maiores. Por essa ótica, compreendemos que o hermético ou atos malfazejos de Fiama consistem em evidenciar uma poesia transpassada de simulacros e despida de cristalinidade.

Graduando do 8º período em Letras pela UFRN

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