Maluf

Por Rodrigo Levino

É interessante a reflexão de Leandro Fortes a respeito de Maluf e seus eleitores. Mas acho perigoso tratar como desvio de caráter. É apostar na generalização. Há várias maneiras e hipóteses – não testei nenhuma empiricamente, não sou sociólogo – para explicar/entender o que se passa, mas não é algo distante da realidade. Moro a umas dez quadras de um dos maiores monumentos à estupidez humana, o Minhocão, um elevado que começa no fim de Perdizes e leva ao centro de São Paulo. Um estrupício arquitetônico que ferrou uma área que há dez anos atrás estava em crescente desenvolvimento imobiliário, novos edifícios, espaçosos, preços razoáveis, próximos do centro (coisas assim próximas ao centro de grandes metrópoles são sempre bem vindas). Maluf foi lá é… cagou tudo. Alguém que morava no quarto andar, hoje abre a janela e dá de cara com uma espécie de viaduto que se estende por cinco quilômetros, fétido, poluído, barulhento, fuligem dando no meio da canela, impossível viver. Maluf podia ter feito várias coisas: ampliar a marginal, reformar a radial leste, estender a Francisco Matarazzo, sei lá, tudo, mas preferiu – aí chegamos onde queria – a medida fácil, vistosa e de efeito imediato: o minhocão. É por causa dele, dentre outros motivos, que Seu Fábio Caetano, taxista da rua que volta e meia anda comigo, vota em Maluf, porque ao invés de gastar 40 minutos de Perdizes para a Liberdade, ele gasta 15 e assim pega mais passageiros, ficando menos tempo preso no trânsito. Eu tento argumentar que aquilo é uma estrovenga, que ferrou uma região inteira, hoje um amontoado de moradores de rua, viciados em crack vagando na pista inferior do elevado, que Maluf poderia ter resolvido em mais tempo e encontrado uma solução melhor, mas Seu Fábio, que é honesto até que se prove o contrário, trabalhador (12 horas por dia no volante), gosta de Lula (como um monte de intelectual e jornalista) e só quer ter menos dor de cabeça no trânsito, prefere Maluf. Pode ser qualquer outra coisa, mas nem sempre é desvio de caráter.

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