Mangabeira

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Foi José Almino quem me falou de Mangabeira. Achei Unger na “Folha”, num artigo longo sobre oPT ser um partido que representava o operariadoindustrial paulista, uma parte organizada (e minoritária) da mão de obra brasileira: a grande massa desorganizada não estaria representada por umpartido assim.

Eu era brizolista e tendia a enfatizar essa diferença. Mangabeira era do PDT. Ele não diziaque esse partido fosse a voz dos trabalhadores desorganizados. Dizia que um partido comprometido com o progresso da sociedade brasileira deveriapoder ser essa voz. Algo assim. Nunca reli o artigo. Mas achei-o forte e diferente do que se escrevia sobreo assunto. Comentei-o com Zé Almino entusiasmado. Isso, nos anos 80. Mais tarde um exemplar do livro “Passion” caiu em minhas mãos. É um livro original.Vê-se logo a força de um grande intelecto — e nada dos hábitos intelectuais em voga.Que o autor estivesse interessado em contribuir para opensamento de esquerda — e desse à política importância maiúscula — aumentava ofascínio que sua pesquisa exercia sobre mim.

Fiquei sabendode sua carreira precocena academia americana. Minha admiração, porém,veio antes dessa credencial. Os artigos seus que li no meio tempo só fizeram meu interessecrescer: falavam daenergia represada da sociedade brasileira, da originalidadede nossa situação. Passei a referir-me a ele em toda entrevistaque dava. Por anos essas referências eram cortadas na edição. Mesmo depois quesua presença na cena nacional passou a ser registrada, os editores seguiam achando que o nome de Unger na minha boca nada acrescentava às reportagens que faziam comigo. Eu dizia a amigos: “Osdonos dos jornais são tucanos e os jornalistas, petistas não querem complicar oFla-Flu dando ouvidosa um cantor de rádio.” E aos m a i s í n t i m o s: “Mangabeira é um sebastianista protestante (o que é uma contradição em termos).” M a n g a b e i r a não era sebastianista: apenas sua conversa pragmática se adequava aos sonhos que me perseguem desde a puberdade e que encontraram em Agostinho da Silva uma fórmula sedutora. Sou meio maluco.

Agostinho me interessava mesmo dizendo que devíamos recusar o liberalismo em economia (e eu via nisso uma reação católica às conquistas do mundo protestante, uns ecos da Contra-Reforma). E gostei de Mangabeira mesmo este dizendo — em seu livro filosoficamente mais ambicioso que o mais importante é seu “diálogo com Deus”. O fato é que sua caracterização da História ocidental modernacomo “cristã-romântica” me fascina. E sua refação do pragmatismo de Dewey, Pierce e James instiga mais do que o fru-fru das estrelas francesas.

A defesa da ideia de um Deus pessoal, em oposição ao Deus impessoal de espinozistas e budistas (tantos de nós, afinal, ateus místicos), me atrai como só podem fazer os gestos arrojados. Eu preciso estar livre para admitir que pensar um Deus pessoal é procurar readquirir a grandeza da experiência do indivíduo humano, que tende a perder-se. Não estou descrevendo aqui uma possível teologia de Mangabeira. Essas miradas sobre a estrutura religiosa subjacente à nossa visão de mundo aparecem em sua filosofia como parte de um programa pragmatista radical.

Ressalto também o capítulo de “Política” que desmonta o conceito de “capitalismo” em Marx. É arrasadoramente inteligente e ensina muito sobre como manter viva a força que passa pelo marxismo sem submeter-se a ele como a um dogma. Fiz anúncios de TV para Mangabeira e Marina. Sabia que ela afastou-se do ministério por discordar dos planos dele para a Amazônia. Ao fazer público meu apoio a ela, disse que o fazia apesar de estar mais próximo da visão dele sobre o tópico. Um Mangabeira não vem dedicar-se à política brasileira toda semana; não é todo ano que uma Marina Silva sai candidata a presidente. E quando algo assim acontece, rendo-me à grandeza do fato.

E considero tolo quem quer ignorá-la. Não preciso que Marina e Mangabeira concordem. Vejo a energia histórica contida em cada um deles chegar onde chegou. Mangabeira sugere à esquerda abandonar a imagem escatológica de “revolução” e negar-se a submeter toda mudança à guerra.Muitos conservadores estão certos ao recusarem o mito da revolução — e se oporem aos regimes que oprimem em nome dela. Não sou conservador. Sou o alvo do texto de Paulo Francis, ex-trotskista, que rezava: “A decadência do Rio data de quando Maria Bethânia substituiu Nara Leão e essa gente começou a chegar.”

Não estou com as marchadeiras. Nem com Badiou. Estou olhando para João Gilberto. Mangabeira disse que seus sonhos nasceram em Salvador, na festa do 2 de julho, ao lado do avô Otávio. Espantame que ele tenha um sotaque de americano de peça do CPC da UNE, quando fala excelente português. Filho de mãe brasileira, por que esses erres retroflexos? Às vezes ele parece dizer “façamos o melhor e tudo será melhor”. Na verdade, ele toma providências para ser o mais concreto possível: poupança de longo prazo para investimentos de longo prazo; financiamento público das campanhas eleitorais; etc. Mas às vezes sua argumentação soa mais adjetiva do que substantiva. A crítica de Gianetti ao seu livro “O que a esquerda deve propor”, por este não conter nem uma palavra sobre ecologia, procede. Mas essa desatenção ao meio ambiente veio como um alívio, depois de ler Zizek elegendo a causa ambiental como pretexto para impor o terror através da revolução.

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