Manhattan brutalista

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Hélio Oiticica furou, nos anos 1960 e 1970, um espaço para dentro da cor e da forma

“Eu, Fulano ou Fulana de Tal, considerando que me disponho a adentrar e a participar da instalação interativa do Penetrável PN 28, ‘Nas quebradas’, de Hélio Oiticica, na Galerie Lelong, Nova York, declaro que assumo qualquer risco advindo dessa decisão e, por meio deste, isento o Projeto Hélio Oiticica e seus empregados, a Galeria e seus empregados de qualquer responsabilidade para comigo, meus herdeiros, sucessores e afins, por qualquer prejuízo, ofensa corporal ou outro dano que eu venha a sofrer, concordando em considerar o Projeto Hélio Oiticica e seus empregados, bem como a Galeria e seus empregados, livres de qualquer responsabilidade ou custos advindos de qualquer prejuízo, ofensa corporal ou outro dano resultante da participação na instalação do Penetrável PN 28, ‘Nas quebradas’, de Hélio Oiticica. Concordo em seguir todas as regras e regulamentos da Galeria enquanto estiver no local. Tenho mais de dezoito anos. Se você tem menos de dezoito anos, por favor peça ao responsável por você para assinar no espaço abaixo.”

O documento acima é um extraordinário sintoma de época, além de um atestado incrível do estado da arte contemporânea e das restrições existenciais sob as quais ela vigora. Na semana da abertura da Frieze Fair, importante feira de arte nova- iorquina, as galerias do Chelsea estão inaugurando mostras do que têm de melhor, inusuais para esta época do ano. Ernesto Neto e Hélio Oiticica estão entre elas, o Brasil desponta aqui ou ali como estando na ordem do dia, e alguns departamentos universitários têm recebido estímulos financeiros correspondentes a essa elevação do nível de atenção para o país, despertado pela situação atual da economia e pelo maior protagonismo político.

Quem ler o texto declaratório da citada exposição de Hélio, que te responsabiliza até a última geração pelo ato de risco perante o qual a Galeria lava as mãos jurídicas, e cuja assinatura é condição incontornável para penetrar no Penetrável, pensará que estamos na iminência de enfrentar a hidra de sete cabeças, de entrar no túnel dos horrores, de pôr a cabeça na boca do leão (experimente lê-lo como a curiosa reza exorcística de uma religião jurídico-financeira).

O Penetrável PN 28, “Nas quebradas”, no entanto, é não mais nem menos do que um percurso de ida e volta, de cerca de três ou quatro metros, inteiramente visível, sobre um chão de brita levemente inclinado em rampa, através do qual somos convidados a subir e descer a ladeira, como num fragmento de favela, pisando o chão das quebradas.

Basta a perspectiva dessa aventura sensorial e esse breve transporte para um espaço outro sobre um terreno movente para que seja acionado um corpo advocatício, mobilizados os resguardos legais competentes e garantidos os flancos contra os riscos de retaliação econômica, ao que parece não só por um eventual tornozelo torcido ou por um improvável braço quebrado, mas frente à própria possibilidade de meu desaparecimento, despertando o consequente batalhão virtual de herdeiros e sócios.

Não é demais lembrar que Hélio Oiticica furou com rigor e desmesura, nos anos 1960 e 1970, através dos Parangolés e dos Penetráveis, um espaço para dentro da cor e da forma, para além da pintura e da escultura, que reestruturava o objeto e o campo espacial da obra de arte, buscando em última instância explodir e expandir o museu para dentro do mundo Os polos de seu campo de ação foram justamente Manhattan e a Mangueira. Na altura de 1978, recolhendo fragmentos de entulho da construção do metrô sob a Presidente Vargas, achou um pedaço de asfalto com a forma de Manhattan, arrancado do subsolo do samba, e o colocou na instalação “Manhattan brutalista” como um elogio da experiência urbana soterrada e da arte de deambular.

Por coincidência, esses assuntos são tratados na tese de Guilherme Wisnik, “Dentro do nevoeiro: Diálogos cruzados entre arte e arquitetura contemporânea”, defendida esta semana na USP (cito-o não porque é meu filho, mas porque, como já declarei aqui, é um dos meus mestres). Diz a tese que o interesse pela arte dos anos 1960 e 70 está em alta , mas marcado por uma contradição verificável exatamente na famosa frase de Oiticica, ao afirmar que “o museu é o mundo; é a experiência cotidiana”.

Esse estado de disponibilidade exposta ao risco, o território baldio ou deslocado, “dotado de uma potência latente de transformação”, em que o museu se converte em mundo, é revertido hoje em uma situação em que é mais propriamente o mundo que se converte em museu. Trata-se de pensar nas “cidades genéricas” a que se refere o arquiteto Rem Kolhaas, na globalização turística dominada pela economia de serviços, na qual a “animação cultural” desempenha um papel fundamental, reduzindo a aventura ao pacote de viagem e museificando de antemão todas as paisagens, imunes ao atrito artístico. É nesse quadro que o projeto lúdico-utópico dos anos 1960 retorna para o museu como parque de diversões (é o que resulta da “Cosmococa” em Inhotim), regulado ferreamente pelas normas de segurança (como acontece com o Penetrável PN 28 na exposição atual em Nova York).

Se Oiticica aparece, no contexto, como a fagulha luminosa de um atrito artístico que se perdeu, a obra de Ernesto Neto (cuja exposição atual se chama “Slow iis goood”) pode ser lida como a formatação inteiramente adaptada das invenções de Hélio Oiticica e de Lygia Clark para a realidade desse mercado atual.

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