Manifesto Makumbacyber

Por Marcia Tiburi
NA CULT

Manifesto Makumbacyber é um manifesto ao infinito. Obra de arte e obra da vida, ele foi criado por Xarlô, o artista incomum que habita o espaço da rara e sincera criação artística em nossa cultura. Ruidocrático, autiditivo-poderoso, seu objetivo é acordar tudo e todos com um grito amoroso e curativo de alegria.

Beto Brant fez um filme de 12 minutos na intenção de registrá-lo. O filme leva o nome do Manifesto Makumbacyber cujo caráter mágico é inegável. Quem o ouve é tocado por uma sorte de alegria sagrada. Mágico, não mítico, o Manifesto pode ser lido, mas é dito e cantado por Xarlô e seus companheiros. É uma oração em que o arcaico e o moderno encontram-se finalmente como curativo de feridas históricas e culturais, que têm sangrado nosso corpo e alma.

O filme dirigido por Brant não é sobre o Makumbacyber. Ele é, desde seu mesmo nome, parte do Manifesto. E, como tal, é político. Mas político enquanto sagrado. Sagrado em nome do melhor afeto que leva à melhor política. O hino de louvor à alegria sagrada celebrada contra a avareza política que devora nossa sociedade. O filme é como o Manifesto estende e amplifica seu barulho sagrado, servindo-lhe de autofalante.

Do mesmo modo que o filme é parte do Manifesto Makumbacyber, gostaria que este texto, à maneira da filosofia selvagem que tanto prezo, fosse também sua extensão, sua continuação e voz auxiliar. O Manifesto Mackumbacyber diz-se remédio afetivo – e espiritual-intelectual – desde que estamos doentes de contato, doentes em nossas relações com o mundo, com a sociedade, com o outro. A doença de cada um consigo mesmo.

A doença do contato nos deforma em robôs frios, tornando-nos secos e duros, obrigando-nos a inconscientes gestos repetitivos, que nos levam a viver crentes no mais do mesmo. Mortos-vivos, devorados por demandas estúpidas no cotidiano abrutalhado do trabalho, a produzir e a aceitar o sofrimento como um dever. A devoção ao capitalismo é o sintoma coletivo da doença do contato cuja cura passa a ser anunciada.

As categorias que regem o Manifesto Makumbacyber são a Força-Curativa, a Força-Motriz, a Regeneração, a Vida na Terra, a Auto-Cura, o Bem e a Paz. A Força-Motriz do Manifesto dispara-se contra a falta de ética, a falta de respeito, a falta de solidariedade. Por isso, o Manifesto é a Vida, que se pronuncia como um canto sagrado, um canto terrível de amor ao que é. Contra toda maldade, inclusas as fantasmagorias capitalistas, que nos impedem de discernir.

Contra o horror infeliz do capitalismo, somente o sentido do processo da vida como comum, como entre nós, poderá levar a uma expansão real de nossas consciências enquanto verdade do corpo-espírito. E nos livrar, assim, da covardia à qual somos convidados diariamente pelo sistema econômico capitalista, que nos humilha e, nos envenenando, nos torna dominados doentes infelizes.

A religião do capitalismo pseudorracional e amedrontado confirmou-se como um grande medo e a grande destruição da religiosidade como verdade brutal, sensível e primitiva do universo do qual somos parte. O profundo sentido da religião é simples contra-alienação. É essa a verdade teológica da política desde Spinoza. O poder que vem da multidão e que nos faz marchar, falar e amar. O poder xamânico da lucidez de lugar contra toda alienação.

O poder negativo que administra o êxtase da alegria de viver, colocando em seu lugar a miséria da mercadoria servida aos mortos que passeiam desesperados entre shopping centers e farmácias, é o que precisa ser combatido. O estupefaciente da mercadoria é a falsidade contra a verdade da vida. O otário, vítima do envenenamento capitalista, tem no capital a sua religião e na religião o seu capital. Contra isso, o Manifesto Makumbacyber acorda os laços incríveis do espírito da linguagem que nos une.

Xarlô, xamã, autêntico tecnoxamã, ousa rezar por nós na contramão da violência que as religiões afrobrasileiras vêm sofrendo. Xarlô reza com toda a sua lucidez, e nós rezaremos com ele em nome da prática democrática que é o Makumbacyber. Nossa macumba, nosso chip de poder, a heresia que nos salva de todo o mal.

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