Mano

calcada

Por Demétrio Diniz

Para aquela noite Mano convocou Neci, Naldo e uma aleijadinha que ele não se lembra mais do nome — mas lembra-se que possuía uma perna fina e uns dez centímetros menor que a outra. Saíram então por Amarante, Soledade, Pajuçara, botando por baixo das portas das casas o papel amarelo, ordinário, listando os produtos em promoção. Por volta da meia-noite, entraram num motel que apresentava na fachada uma placa luminosa, onde só a perna direita de uma mulher se movia em fração de segundos para baixo e para cima. Receberam a chave do quarto sem chegarem a um acordo se a outra perna era paralítica ou seria uma mulher de uma perna só.

No quarto fizeram farra com os panfletos que restaram, incendiando os papéis para atirá-los no ventilador do teto. As minúsculas chamas que desciam em redemoinho lembraram a eles, certamente por terem bebido muito, uma chuva de estrelinhas de fogo. Mano apanhou a última, quase parada no ar, e disse que era uma estrela cadente. Riram os três do repente de Mano, e dançaram nus e abraçados, cantarolando um refrão que ali mesmo inventaram, embora a aleijadinha desnivelasse a roda, ondulante como uma pequena montanha-russa.

Mano, Neci e a aleijadinha deitaram-se na cama, vindo Neci depois a ter um filho que Mano nunca chegou a ver, e por isso o resto da vida com o incômodo de um filho ignorado. Daquela noite ele se recorda que botou Naldo para fora do quarto, fosse dormir no banco do carro, negando-lhe a sua parte de prazer por que tanto esperou: Fora daqui, seu viado.

Mano lembra-se mais da aleijadinha que de Neci, da insistência dela, E eu, não tenho vez não? Chutou-a da cama como quem chuta um pacote. Chegou a ver um tufo de cabelos no peito da aleijadinha. Disse que aumentou sua raiva quando a viu no chão do quarto, lamentando-se por ser uma infeliz. Pensou, e por sorte não fez, em chamuscar o peito dela com um panfleto que sobrara debaixo da cama.

Difícil é se saber hoje se a mulher era de fato peluda. Mano sempre teve sérias dificuldades com as mulheres, fóbico ao pressentir a aproximação amorosa delas. E por isso desfocava a percepção. Então via uma dentadura natural e bonita como sendo prótese; ou logo imaginava uma traição ante uma expressão aleatória ou de mera curiosidade de sua parceira. Essas coisas chegavam mais alteradas aos seus sentidos quando bebia.

No outro dia esqueceram a caminhada pelos bairros, a mulher da placa de néon, o prazer, a lamentação, e voltaram aos seus papéis. Mano dando ordens, e as duas vendendo aos transeuntes calcinhas que esborravam de um tabuleiro na calçada. A aleijadinha escorava-se na borda do tabuleiro, com um rostinho bonito e um riso doce, enquanto Naldo, ou Naldinho, como o chamavam, servia lá dentro café ao patrão.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga. 27 de novembro de 2013 16:09

    Demétrio,amigo.
    Muito bom seu texto, adorei e dei muitas risadas. rs
    Vc é da safra dos geniais e importantes escritores desta geração.
    P.S.
    E sabe que está convidado para participar do meu livro de entrevistas faz tempo.
    Abraços.

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