Manual de Socorro

Por Jarbas Martins

Cautelosamente evitou rasgar o seu passado cintematográfico, feitos de suplícios e saudades, e condessas descalças. Passado indesejável como um chicle de bola grudado na poltrona do cinema. Não mencionou nenhum dos estilos de novelas de rádio, a sentimentalóide trama mexicana, por exemplo. E por isso nunca cultivamos um passado comum, meu amor, nem a escova. o lençol e a tosse conjugal. Não lavamos a louça suja da convivência, os panos da nossa trivial tragicomédia, nem trocamos retratos e bilhetes, ignorando simplesmente Noel Rosa. Não adotamos os supermercados regurgitantes de ofertas, nem as padarias que exalam seu cheiro civil de tédio. Em compensação soltava os seus cabelos e sua risada ao vento, o bugue demarcando nas dunas o território da nossa disponibilidade. E, com os dedos lambuzados de ternura, inscrevíamos, ao mesmo tempo, em nosso corpo, o fluir veloz de um verão.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo