Manual do bom conservador

Por Marcelo Coelho
Na FSP

COMECEI depressa a ler o livro, que é curto, mas perdi a coragem de continuar. Só depois de uma pausa consegui retomá-lo. Foi escrito por José de Alencar nos anos 1867-68 e nunca mais foi republicado.

Reaparece agora em edição de bolso, à venda até em bancas de jornal. E devia ser leitura obrigatória no currículo do secundário, tal a sua capacidade de sintetizar a mentalidade brasileira no que tem de mais conservador, de mais atrasado, de mais duro.

Trata-se das “Cartas a Favor da Escravidão” (editora Hedra), que o célebre romancista endereçou, sob pseudônimo, ao imperador dom Pedro 2º. É sempre fácil, sem dúvida, acusar de insensibilidade e falta de lucidez um texto escrito em outra época.

Mas o que mais importa é ver de que modo o livro de José de Alencar expressa hábitos de pensamento que, até hoje, fazem parte do arsenal reacionário.

Veja, por exemplo, a crítica de Alencar às pressões de países como Inglaterra e França para que acabasse a escravidão por aqui. Como assim?, pergunta Alencar.

Que direito têm as potências estrangeiras de interferir num assunto brasileiro? Filantropia e indignação moral são expedientes hipócritas dos europeus. De resto, não temos culpa pela escravidão.

“Não fomos nós, povos americanos, que importamos o negro da África para derrubar matas e laborar a terra; mas aqueles que hoje nos lançam o apodo e o estigma por causa do trabalho escravo.” Alencar continua: “O filantropo europeu, entre a fumaça do bom tabaco de Havana e da taça do excelente café do Brasil, se enleva em suas utopias humanitárias (…) Em sua teoria, a bebida aromática, a especiaria, o açúcar e o delicioso tabaco são o sangue e a medula do escravo.

Não obstante, ele os saboreia”. É típico. Nossa inocência está sempre fora de dúvida. Não se pode exigir de um país tão “jovem” que assuma responsabilidade pelo que faz. O fim da escravidão, diz Alencar, virá a seu tempo. Ainda é cedo para querer isso no Brasil. “A raça africana tem apenas três séculos e meio de cativeiro. Qual foi a raça europeia que fez nesse prazo curto a sua educação?”

Sim, porque a escravidão educa o negro. É nessa “escola de trabalho e sofrimento” que um povo “adquire a têmpera necessária para conquistar o seu direito e usar dele”.

Cabe considerar também, diz Alencar, que esse processo educativo é mais lento no Brasil do que, por exemplo, no norte dos Estados Unidos. Lá, graças ao espírito industrioso dos anglo-saxões, o negro rapidamente se transformou num “operário ao qual só faltava o espírito do lucro”. Mas nós, brasileiros, somos diferentes. “A raça latina é sobretudo artística (…) Outros elementos, que não o cômodo e o útil, impelem o caráter ardente dessa família do gênero humano: ela aspira sobretudo ao belo e ao ideal.”

Como diz a ótima introdução do historiador Tâmis Parron, deve-se fazer uma justiça a José de Alencar: ele não compactua com as teses da época sobre a inferioridade racial dos negros. O problema, como sempre, é “de educação”, “despreparo”. Mantenha-se, portanto, a escravidão. Aliás, de que escravidão exatamente se está falando? “Um espírito de tolerância e generosidade, próprio do caráter brasileiro, desde muito transforma sensivelmente a instituição. Pode-se afirmar que não temos já a verdadeira escravidão, porém um simples usufruto da liberdade.”

As relações entre senhor e escravo “adoçaram” por aqui, diz Alencar, repetindo várias vezes o verbo que faria tanto sucesso na obra de Gilberto Freyre. Seja como for, o escravismo é uma “instituição”. E “as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração. Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las”.

Senhores utopistas, fiquem avisados. O que se pretende, ilusoriamente, em nome do progresso, dos direitos humanos etc., contradiz a realidade social. Transformá-la, ainda mais tão cedo, é uma insensatez. Há de preferir-se a realidade, é claro. Desde que se esteja do lado certo do chicote.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Pablo Capistrano 4 de Maio de 2010 10:44

    Interessante é ler o livro da Keilla Grinberg – Código Civil e cidadania (se não me engano) – ela descreve a polêmica envolvendo Teixeira de Freitas e José de Alencar em função do projeto do código civil brasileiro (o primeiro, antes do de Clovis Bevilaqua).

    Alencar usava argumentos historicistas semelhantes ao que Savigny usou contra Thibaut na discussão em torno da codificação alemã. Isso porque uma codificação civil no Brasil tinha que tocar no problema da escravidão. Alencar representava aquela aristocracia rural que não queria que o projeto de codificação rendesse frutos.

    Existe uma amalgama de nacionalismo e racismo que embalou a intelectualidade européia pelo século XIX e chegou até o Brasil pela porta dos românticos.

    Por isso eu sinto calafrios sempre que alguém fala em “raça” ou em “nação”.

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