Máquina de Alienação em Massa

Por Jota Mombaça

Eu precisava pagar meu cartão de crédito e por isso entrei no Auto de Natal no ano passado. Senti que estava me traindo, mas eu, como meus pais pequeno-burgueses me ensinaram, passei por cima de minhas convicções para preencher um vazio mais ululante que o d’alma, o do bolso. Talvez por similar circunstância estejam vários de meus queridos amigos este ano envolvidos no patético processo. E este lamento crítico eu dedico a eles.

Pareço me repetir nesse discurso, eu sei, mas não é o caso. Este artigo serve ²(nota do futuro: este artigo serve para te provocar) para trazer à tona o caráter biopolítico da superprodução da prefeitura, sua potência alienante e sua ação na subjetividade da multidão natalense. Aos que vêem o Auto de Natal apenas como um evento teatral artisticamente pobre e economicamente injusto, largando mão de seu caráter normativo e de retomada de valores anacrônicos que servem muito mais para manter as pessoas no cabresto do que para fazê-las crescer em qualquer aspecto que seja, clamo alto para que acordem.

Este ano, por exemplo, diz-se, à boca pequena, que o espetáculo terminará com os votos de Feliz Natal invertidos, ou seja, com a frase Natal Feliz. Natal Feliz? A quem eles querem enganar? Sabe-se muito bem. Eles querem enganar a nós, querem nos encher os olhos – e até projeções em 3D terão para isso –, nos apaziguar a mente, nos acalmar a fúria, eles querem nos sedar. Isso me lembra a propagando política dos tempos da ditadura militar quando chegavam ao cúmulo de propagar, via tevê, coisas como “Rio de Janeiro, terra da liberdade.”

O próprio vil intento que o (segundo a Revista Catorze) verborrágico Rodrigues Neto tem sempre externado de promover um evento para a família cristã natalense, convenhamos, é patético em termos de cultura. Não que devamos todos negar a tal família cristã natalense (rebanho graaaaaaaaaaaaaaande), muito pelo contrário, nós só não precisamos – devemos ainda menos – deixá-la onde ela está, a não ser que queiramos minar a contracultura e despromover o pensamento recheando-o de intangíveis impossíveis verdades¹. Não falo no extermínio de nada, eu falo em questionar docemente, quase sem maldade, com todas as boas intenções do mundo, porque é nosso direito/dever, mais do que votar e ler a cult carta capital, no campo da política, PENSAR e provocar o pensamento nos outros!

¹Essa verdade cristalizada-transitória, do tipo que se prega friamente aos nossos neuromeninos subdesenvolvidos de nordestino-brasileiro-latino e se desprega sem que nos apercebamos das trocas, como se nós não déssemos conta delas, não conseguíssemos vê-las tampouco guardá-las tampouco refleti-las somente sabê-las e desse modo inquestioná-las.

Todo ano enchem-se pátios e praças e anfiteatros de gente simples-difícil. Eles chegam e então se sentam para assistir ao ilustríssimo espetáculo com seu silêncio e assisti-lo, o espetáculo ilustríssimo, com seus hipnotizáveis olhos cheios de pequena-grandeza. Uma mãezinha amada cristã triste-burguesa, por exemplo, teria gostado de me ver lá fazendo figura (de tijolo). Sairia feliz, sem pensar em nada senão nas contas a-pagar antes de adormecer, quando acordasse trataria de pagar as contas e não pensar em nada senão nas contas que poderia fazer para depois pagar para depois adormecer antes de pensar para não sofrer de manhã e conseguir poder (para) pagar as contas que tinha pra fazer antes de endossar sem querer o contrato que não lia, não leria, não pensava em ler.

Esta aqui é a reticência final. Eu até diria mais, mas ando às vias de me afogar no sangue meu que derramo quando abraço este meu sangrento nirvana, vão vocês atrás de pontos finais ou parágrafos adicionais a isto aqui, yeaaaaaaaaaaaaaaaah, yeaaaaaaaaaaaaaaaah, yeaaaaaaaaaaaaaaaah, yeaaaaaaaaaaaaaaaah, yeaaaaaaaaaaaaaaaah, you know you’re right, you know you’re right, you know you’re right, you know you’re right, you know you’re right, you know you’re right, you know you’re right³.

²refere-se à nota do futuro no passado segundo parágrafo do texto.

³do Nirvana

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 − dezoito =

ao topo