Marçal Aquino – Final

Sérgio Vilar – Como você vislumbra o roteiro de um filme? É da mesma forma da linguagem literária, pelas ruas, ou não?
Marçal Aquino – Não, é muito diferente. Quando escrevo literatura – e isto é um método meu – eu sei muito pouco sobre a história. Quanto menos eu sei, melhor é. Daí eu vou escavando e vou descobrindo. No cinema tenho que saber de tudo antes. Ou tudo fica lento. É preciso um resumo do que acontece para poder ter controle sobre a narrativa (Marcelino Freire ressalta que “finalmente” chega a cachaça de Marçal). Então, a grande história do cinema é você poder contar a história numa outra linguagem, de audiovisual. E faço isso com muita naturalidade. Até brinquei hoje à tarde dizendo que é como se a gente apertasse a tecla Sap: vou escrever um roteiro que se adapte ao cinema; vou escrever texto literário. Faço tudo com prazer, mas o grande barato da minha vida é a literatura. É a minha casa, onde eu tiro meus sapatos e fico à vontade.

A literatura certamente passa pela sua experiência de vida. Sartre poderia explicar melhor isso. Mas você consegue separar ao máximo e criar personagens totalmente fora do seu contexto?
Realmente, literatura passa por tudo o que eu vivi. Não tem escapatória. Eu seria uma pessoa completamente diferente se eu não me interessasse por literatura. Seria uma pessoa menos feliz.

Suas preferências literárias passam por leituras obscuras, autores clássicos ou o quê?
Eu gosto de caras que falem ao meu coração muito mais do que para meu cérebro; do cara que bota medo no mundo, sem importar que mundo é esse e eu me interesse por saber o que tem ali. Esse é o escritor que me pega pelo colarinho e me leva com ele.

Marcelino Freire faz uma pergunta: “É mais importante beber ou escrever?”
Importante é amar. Ou nada vale a pena. O resto a gente faz contato com o mundo visível. Agora, o que interesse no mundo visível é outra coisa.

Quais outras coisas?
São as coisas todas que me tocam. A lista é pequena: beber, fuder, escrever, ler, ir ao cinema, amar, viajar e sonhar.

Você representa o novo na literatura nacional e vem das terras pernambucanas de Ariano Suassuna. O que ele representa para a literatura nacional?
Para a literatura por si só, com o encanto que está enterrado dentro daquilo que ele ainda escreve. Acho A Pedra do Reino uma coisa fabulosa. Eu vi a montagem em São Paulo e pensei: “Como aquilo pode ser tão atual?”. Ou seja: o humano nunca é temporal. E o Ariano saca isso. Está na vivência dele. E segundo que ele, a pessoa Ariano, é de uma integridade admirável. Ele é um farol para quem deseja aprender a se comportar. Ele me lembra, em certo sentido, o Graciliano (Ramos), porque era outro homem que tinha uma literatura magnífica e foi também magnífico na sua integridade pessoal.

O último dos sertanistas?
Ele é o último muita coisa. É um animal em extinção e precisa se cuidar bem. É melhor que o mico-leão-dourado, mas ninguém faz por ele.

Você acha que a contribuição do Movimento Armorial alcançou a dimensão desejada?
É difícil ser pontual. O Movimento Armorial ficou muito circunscrito numa região. Mas ele se espalha. O Lenine, o Antônio Nóbrega, por exemplo, não seriam possíveis sem o Armorial. Veja que a arte começa no núcleo e termina por se abrir. Além daquela coisa medieval que está na base da coisa, o que é que aquela linguagem permite aos artistas contemporâneos explorarem? O próprio Lirinha (do Cordel do Fogo Encantado) é influenciado por esse movimento. De certa maneira, a arte quando ela é grande, extrapola o seu momento e os fluidos vão saindo, vão andando e gerando novos frutos. Essa é a grande maravilha da boa arte.

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