Marçal Aquino – Parte 1

Seria fácil classificar Marçal Aquino como escritor, jornalista e roteirista de cinema. Ou ressaltar seu trabalho como repórter policial do periódico jornalístico-literário Jornal da Tarde, seus livros, como O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, ou filmes excelentes como Cheiro do Ralo e Cão Sem Dono, ambos de 2007. Mas Marçal Aquino é também um idealista. E um cara estranho. Primeiro por encarnar a verve de escritor como poucos. E escritores são seres estranhos. Apesar dos 13 livros lançados e atividades variadas como redator e roteirista, o cara não tem carro e mora em residência alugada. Puro idealismo.

Aos 47 anos, esse caipira de Amparo tece uma das trajetórias mais sólidas e conscientes da literatura atual. O entrevistei numa mesa de choperia aqui de Natal. Ele tomava cachaça com amigos. Mostrou-se entendido no assunto ao recomendar ao garçom. Na mesa ainda estavam o escritor pernambucano Marcelino Freire e o escritor potiguar Rodrigo Levino. Os três haviam participado de discussões a respeito de literatura em um evento literário produzido no Natal Shopping. A seguir, Marçal fala um pouco de literatura, jornalismo, cinema e da arte de viver independente destas três atividades.

Sérgio Vilar – O que achou da mesa literária agora a pouco?
Marçal Aquino – Foi mais uma conversa entre eu, o Marcelino e Levino, basicamente falando de literatura contemporânea; do que ocorre no meio literário; de tendências e, principalmente, das dificuldades. Fazer literatura no Brasil hoje é um exercício duro. Você não pode nem pensar em transformar isso numa atividade economicamente viável. A literatura depende de uma dose de sonho; de paixão. Literatura hoje é muito difícil. Ouço falar que as pessoas têm lido mais. Mas certamente não é literatura. Estão lendo de tudo: Zélia Gasparetto… Claro que devem ler, mas a literatura está cada vez mais um objeto de culto de uma minoria; de uma ceita. Eu digo ceita porque é parecido com algumas igrejas por aí. É uma turminha que gosta pra caralho desse tipo literatura. Ok. É para essa turminha que quero falar.

Você vive de quê, tem fome de quê?
Sou jornalista, seu colega. Cinema e Literatura são atividades que realizo por sonho. Ganho dinheiro como redator. Já não faço mais a linha policial. Hoje em dia faço de tudo. Desde 1994 não tenho patrão. Tirando letra de câmbio e bula de remédio eu escrevo para o que aparecer. Mas sou jornalista. Está aqui a carteirinha para provar.

Aqui em Natal matamos um leão por dia para sobreviver como jornalista. É como se vivêssemos da literatura…
Meu nome tem uma certa circulação, como escritor ou roteirista de cinema, e mesmo como jornalista. Então, me convidam. Pagam bem para eu escrever certas coisas. E dá pra ir tocando. Não tenho grandes ambições. Não tenho nem carro. Tenho uma filha de 15 anos para criar. É meu único compromisso. Moro numa casa de aluguel. Não gasto com nada. E sou um cara que gosta de escrever literatura. Então, todo meu esforço é no sentido de comprar o meu tempo e financiar o meu sonho. O leão que mato é pequenininho, como aquele do Caetano. Às vezes não preciso nem sair de casa. Fico na Internet, arrumo um trabalho e faço.

Quantos cenários você grava na memória para escrever um livro?
Isso já é mais complicado. Não é tão pragmático assim. De repente eu venho a Natal e daqui a 15 anos vou escrever um livro que se passa em uma cidade e eu saco que é Natal, e escrevo com base em minha memória. Já aconteceu isso. Já passei 20 dias em Natal escrevendo um livro que nada tinha a ver com a cidade; tinha com a Paraíba. Essa coisa da memória, do que fica impregnado na gente, para efeito de ficção, é impossível você largar. Você nem sabe que aquilo voltou pra você tanto tempo depois. É maravilhoso isso.

Os escritores são seres estranhos. Alguns escrevem a partir de uma frase. Outros, de um trocadilho fazem um livro; uma cena; uma história…
Se você me perguntar de onde vem minha literatura eu digo que vem da rua. Dependo muito da rua. Não posso ficar em casa pensando em literatura; em James Joyce. Preciso ir à rua; ouvir a fala; captar a poesia e a miséria. E a partir daí faço literatura.

Esse olhar à rua é o olhar do repórter?
Não tem como fugir disso. Eu tenho um lado de minha literatura… (o garçom avisa que não tem a cachaça pedida pelo escritor. Ele pergunta quais as que têm. Marçal havia pedido a cachaça Campo Limpo e optou, então, pela Serra Limpa). Mas a idéia é a seguinte: eu preciso dessa inspiração. E evidentemente um pouco desse olhar é treinado pelo jornalismo. Eu adoro ouvir conversa alheia. Gosto de captar falas. O diálogo, pra mim, é uma coisa super fácil de escrever porque só ando de ouvidos abertos. O Nelson Rodrigues dizia que o problema do escritor brasileiro é que ele toma pouco cafezinho. Ele quis dizer que o cara vai pouco pra rua. Eu preciso ver, ouvir. É quando dispara em mim a vontade de produzir.

Você passou acho que mais de dez anos como repórter policial. Você já chegou à redação com vontade de escrever um conto a partir do fato apurado para a matéria?
Fui repórter policial durante a década de 80. Trabalhei no Jornal da Tarde, onde o que se buscava era o texto literário. Às vezes até dava trabalho. Somos tão acostumados a fazer jornalismo de forma objetiva, com o quê, quem, onde, quando, como e porque… Mas meu chefe me recomendava uma novela policial. O repórter era incentivado a isso. Pegávamos os elementos ao redor, que sequer tinham importância para o fato, mas era importante para a dramatização. Foi uma escola maravilhosa.

A elaboração de roteiro de cinema é mais dificultosa para você?
Eu sempre gostei de cinema, mas como expectador. Fui parar no cinema meio que por acidente. Um diretor quis adaptar um texto meu, eu fui lá ajudar e acabei entrando na brincadeira pra valer. Já estou no oitavo longa. No Brasil isso é muito. Não dá dinheiro. Faço por paixão, também. É uma coisa cara, coletiva. É igual a suruba: chama-se um monte de gente pra fazer. Literatura pelo menos é um exercício solitário.

Como você analisa esta linguagem de roteirista?
Vejo da seguinte forma: é uma outra maneira de contar a história (ou estória). Não é como escrever literatura porque literatura é um território muito próprio. Mas é uma forma de contar uma história dentro de uma linguagem definida. E aí você adequa. Como ocorre com o jornalismo: também se escrevem textos, mas não é de literatura ou de cinema.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Rafael Duarte 12 de Setembro de 2008 20:20

    Quer dizer que o chefe do cara instigava ele a fazer uma novela a partir de um assassinato “banal”? Parece aqui, né? Publica logo a segunda parte, ficou muito legal essa primeira. Abraço

  2. Ana Paula Costa 12 de Setembro de 2008 21:34

    À espera da continuação. Muito massa. Parabéns!

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