Marcianos

Por Ronaldo Correia de Brito
TERRA MAGAZINE

Ele nunca soube o que fosse enlevo e atribuía a dormência no corpo aos solavancos do ônibus tentando desviar-se dos buracos na estrada de barro, água e lama após cinco dias de praia chuvosa. Ela colocou a mão de dedos finos sobre a mão dele, deixou-a repousar sem nenhuma pressão, folha caída numa superfície líquida, boiando entregue ao vento.

A fotografia olhada trinta e seis anos depois parece um instantâneo de felicidade: tempo plasmado sem erosão nem ferrugem, ausência de desejo. Porém ela guardava um desejo camuflado em tristeza, o sonho de ouvir uma confissão de amor, verso de poema.

Ele achava esse gosto pueril – coisa de mulheres -, desdenhava Vinícius de Moraes e nunca falaria estrofe vulgar. O que é belo e verdadeiro não precisa do testemunho das palavras, se revela nos gestos, afirmava sorrindo. E para deixá-la mais triste recitava seu poeta preferido: Às vezes com a pessoa a quem amo / fico cheio de raiva / por medo de estar só eu dando amor / sem ser retribuído; / e agora eu penso que não pode haver amor sem retribuição, / que a paga é certa / de uma forma ou de outra.

A fria seta do poema tinha alcance certeiro, ela não apreciava Walt Whitman e o amor exaltado, sem limites entre natureza, pátria, homens e mulheres. Vira-se na cadeira do ônibus durante um solavanco mais forte e o enxerga dourado na luz de final de tarde, um marciano sorrindo para nada. Ele continuava sem compreender os arrepios estranhos, talvez fosse febre, palpa a testa fria com o dorso da mão.

Não se expõe a ridículos, nada de confessar intimidades como o professor de português contara aos alunos que a esposa sempre desejara ouvir um simples “eu te amo”. Mas o professor toda vida se recusara a isto e a mulher agora estava morta. O professor levou flores ao túmulo, ajoelhou-se e disse “eu te amo”. Quando ouviu o relato piegas sentiu desprezo. Qual a força desse sentimento pequeno se ele pensa na grandeza do universo em transformação?

No entanto, continua sem compreender o exército de formigas subindo e descendo seu corpo, a paralisante entrega que o deixa inútil. A mão de dedos finos toca seus cabelos, penteia os cachos escuros. Dois olhos o recobrem com um véu transparente, mas não impedem que a luz do sol o torne cada vez mais dourado. Ele pergunta se tem febre e ela responde não. E o que é isso que experimenta? Enlevo. Nunca sentiu antes, ela pergunta? Não, ele responde.

Já não enxerga ônibus, pessoas, nem os buracos na estrada. O sol brilha para os dois, raios se filtram entre milhões de gotículas d’água que sobraram da chuva. Uma fina poeira de ouro os envolve, ele não consegue raciocinar e a abraça com força. Acha que vai morrer. Antes que isso aconteça, fala bem alto, com uma voz que nem parece a dele: eu te amo.

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