Márcio Otávio: amigo e ator

Por Grimário Farias
Ator

Nesta terça feira, 14 de junho de 2016, eu e vários companheiros das artes realizamos uma “cerimônia do adeus”, para nos despedir do amigo Marcio Otávio. Simples, mas bastante significativa. Segundo seus desejos, ao morrer gostaria de ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas na Praça André de Albuquerque, mais precisamente, sob as raízes de uma grande árvore bem em frente à Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, a nossa antiga Catedral. Inteligente como era, arranjou uma forma de ocupar a cidade que ele tanto amava e que escolhera para morar.

Pois, com a brisa permanente que sopra em Natal, suas cinzas serão levadas aos mais diversos lugares, descendo a ladeira, alcançará a Rua da Misericórdia de onde contemplará “ad infinitum”, o belo pôr de sol no Potengi. Uma linda homenagem à cidade que escolheu como sua.

Márcio Otávio, João Pinheiro e Grimário, em Portugal
Márcio Otávio, João Pinheiro e Grimário, em Portugal
Marcio nasceu em São Paulo, onde participou de um dos grandes momentos do teatro brasileiro, a montagem do espetáculo “O Balcão”, do escritor francês Jean Genet, dirigido pelo argentino Victor Garcia e produzido por Ruth Escobar, em 1969. Ainda, com Ruth Escobar, atuou na montagem de “Missa Leiga”, de Chico de Assis, com direção de Ademar Guerra, espetáculo este, que o levou a conhecer Portugal e Angola.

Trabalhou com Ruth Escobar durante cinco anos. Atuou ainda, em “A Viagem”, uma adaptação de Os Lusíadas, dirigida por Celso Nunes, e em “Romanceiro da Inconfidência”, quando conheceu Rofran Fernandes, que encenava o espetáculo. Foi durante esse período que surgiu a oportunidade de conhecer Natal. Convidado por Rofran veio à capital potiguar onde trabalhou em “Augusto dos Anjos – Poeta e Cidadão Brasileiro” juntamente com um bom número de atores potiguares, entre eles: Amaro Bezerra, Fátima Arruda, e o saudoso vereador Sérgio Dieb. O espetáculo cumpriu uma longa temporada em Natal e partiu para apresentações em São Paulo. Vale lembrar que antes de decidir morar em Natal, Márcio Otavio retornou à cidade para, com a direção de Rofran Fernandes, montar aquele que seria, talvez, o primeiro “Auto de Natal”, naquele momento chamado de “Natal em Natal”, um texto de Rofran Fernandes, com as participações de Roosevelt Pimenta e Neto Oliveira, apresentado no Palácio dos Esportes Djalma Maranhão, sendo à época o governador do Estado, Cortez Pereira.

Cansado de São Paulo, resolveu transferir-se definitivamente para Natal. Aqui trabalhou, inicialmente, em uma construtora, e como era de se esperar não deu muito certo. Fez amizades e voltou ao palco. Foram várias das suas contribuições ao teatro potiguar. Participou das duas versões de “By By Natal”, de Racine Santos, com direções de Moncho Rodrigues e Eliezer Rolim, respectivamente; também de Racine Santos, os espetáculos “A Farsa Do Poder”, no qual atuou como ator; o “Congresso das Borboletas”, espetáculo infantil que dirigiu; e “Elvira do Ipiranga”, que encenou com a participação dos atores João Pinheiro, Alex Ivanovitch e João do Vale, entre outros.

O Teatro reunido: Racine Santos, Grimário Farias, Marcio Otávio, Lenício Queiroga, Gilberto Sérgio e João Marcelino.
O Teatro reunido: Racine Santos, Grimário Farias, Marcio Otávio, Lenício Queiroga, Gilberto Sérgio e João Marcelino.
Tivemos o prazer de trabalhar juntos em “A Luz da Lua, Os Punhais”, texto de Racine Santos, com direção de Moncho Rodrigues, espetáculo apresentado na Bienal Universitária de Coimbra em Portugal, 1990. Em “A Divina Catarina”, texto de Rodrigues Neto, trabalhamos juntos, eu como diretor, ele como ator e cenógrafo, assim como em “Um Auto de Natal”, que dirigi e ele trabalhou com cenógrafo.

Quando da existência do Centro Experimental de Teatro, na época dirigido por Moncho Rodrigues, foi feita uma montagem do espetáculo “Os Desencantos do Diabo”, de Ronaldo Correia Brito, no qual atuou ao lado da atriz mossoroense Toni Silva.

Seu interesse pelo teatro levou-o a retornar a São Paulo, onde passou um ano estudando e pesquisando cenografia, no Espaço Cenográfico J. Serroni. Nesse período aproveitou para visitar sua amiga a quem tanto admirava, trata-se da escritora e poeta Hilda Hilst, por quem nutria uma admiração fervorosa e com quem se refugiara por um bom período, num sitio onde ela vivia.

Foi assim, com passagens por um programa da TV Cabugi, onde encarnou um surfista desengonçado; no cinema, aqui em Natal com participação em “Fabião das Queimadas – Poeta da Liberdade” de Buca Dantas, que Marcio Otavio nos brindou com seu talento enriquecendo a cena potiguar.

Muito importante, também, foi sua participação no “Circo Da Luz”, um projeto de Racine Santos, no qual gerenciou o circo, e que levou uma extensa programação cultural para vários municípios do Rio Grande do Norte.

O que mais me chamava atenção em Marcio Otavio era seu bom humor, sua forma de encarar a vida com uma tranquilidade e a capacidade de transformar os momentos difíceis da vida em uma comédia desbragada.

É essa desmesura incontida e ao mesmo tempo leve que fizeram de Marcio Otavio o ator encantado/encantador que tanto nos cativou e intrigou. Que suas cinzas polinizem com doçura e cada vez mais vigor o teatro potiguar.

FOTO: Acervo de Grimario Farias, em cena de “A Divina Catarina”.

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