Marco

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Uma ideia ou uma forma estética não são propriedade real de quem as inventa

Meu filho de 20 anos estava me perguntando sobre coisas dos anos 60. Queria entender o que significava eu ter dito a ele que os Beatles, quando surgiram, não nos pareciam algo muito diferente daquilo que Justin Bieber parece a ele e a seus amigos hoje. Essa conversa veio porque ele tinha visto umas fotos em que achou o cabelo de Paul McCartney semelhante ao de Bieber, observação que indignou seu irmão, meu filho de 15 anos. Para este, tudo o que se refere aos Beatles é sagrado e não pode se aproximar da vulgaridade do garoto canadense. Expliquei aos dois que os Beatles de “I wanna hold your hand” tinham para o grupo de pessoas que eu conhecia – tanto na Bahia quanto no Rio – mais ou menos o mesmo significado que Bieber tem para eles agora.

O mais velho, interessado em música eletrônica mas conhecedor do pop e do rock dos países de língua inglesa, quis entender como diferençávamos os Beatles dos Rolling Stones. Estes seriam desde sempre vistos como mais rock”n”roll do que os quatro de Liverpool? Respondi que, ao menos aqui no Brasil (mas estou certo de que, em considerável medida, também nos Estados Unidos, se não na Inglaterra), os Stones foram como que Beatles de segunda categoria. Mas que isso não demorou muito. Logo “Satisfaction” era um hit forte e, pouco depois, os Stones começavam a ser olhados como roqueiros mais descolados, longe dos terninhos e franjinhas dos seus rivais. Mas não sem que antes tivessem tentado algo psicodélico, “Satanic Majesty” sendo o “Sgt. Pepper´s” deles. Mostrei “Lady Jane”, anterior àquele álbum, e ele riu. Foi aí que mencionei que os Stones, que não tinham repertório próprio no começo, gravaram uma música de Lennon e McCartney. “I wanna be your man” era o título. E meu filho, cheio de curiosidade (e descrença), achou na internet, em alguns segundos, a gravação com os Stones. Ficou chocado: “Isso é punk!”, disse. “Isso parece muito com o punk e é mais espontâneo.” Contei que muitos dos estilos que se definiram em gêneros depois (metal, prog, punk, glam, whatever), assim como muitas das ideias sobre política e comportamento (movimento feminista, gay, ecológico, negro e o que mais), estavam como que amalgamados nas bandas e nos ânimos da segunda metade dos anos 60.

Ouvirmos juntos a gravação de “I wanna be your man” com os próprios Beatles nos fez rir. Eu via que ele entendia minhas palavras sobre Bieber e eu lembrei que Nelson Motta tinha acabado de dizer, num texto, que achara os Beatles meio ridículos quando os ouviu pela primeira vez. A produção do “I wanna be your man” deles era polida e os vocais afinados e seguros, contrastando com o som tosco dos Stones e o vocal amador de Jagger. Ficou claro que, mais tarde, esse som tosco garantiria aos Stones a respeitabilidade rock que os Beatles por um tempo perderam. Mas também explicava por que achávamos o grupo de Keith Richards e Brian Jones algo simplesmente inferior ao de Ringo e George Harrison.

Este mundo é um pandeiro. Contei a Zeca que os punks, no entanto, quando surgiram nos anos 70, prefeririam dizer que gostavam mais dos Beatles do que dos Rolling Stones. Acho que a “angústia da influência” é mais forte no mundo anglófilo.

Observar essas movimentações em companhia dos meus filhos traz muito forte o gosto da História e mesmo da vida. Nesta semana em que o Marco Civil da Internet está sendo analisado por uma comissão da Câmara dos Deputados, fica ainda mais excitante – tanto no sentido de estimulante quanto de assustador – sentir como se movem as questões relativas à cultura popular de massas, aos significados do repertório simbólico que se reconfigura à nossa vista – e ao sentido da originalidade no fenômeno da criação. O Marco vem do governo Lula, isto é, do período Gil/Juca do ministério da cultura. É sabido quão simpática à liberalização do mundo virtual – e quão relativizadora do valor do direito de autor e da propriedade intelectual – foi essa gestão. O episódio da ministra Ana de Hollanda retirando o logo do Creative Commons do site do ministério é emblemático da diferença, quanto a esses problemas, entre seu grupo e o que o antecedeu. De minha parte, além de reconhecer a irreversibilidade da situação criada pelo surgimento da internet, considero que essa subida da concessão de direito sobre criação intelectual até 70 anos após a morte do autor é coisa mesmo da Disney para segurar o Mickey. Uma ideia ou uma forma estética não são propriedade real de quem as inventa. São, em princípio, de todo mundo. Mas um escritor tem de ser estimulado a escrever: deve poder viver dessa atividade. Um cineasta, um músico, um pintor, também. E eu não me animo a assinar manifestos que defendem a liberdade de Google ou Facebook, alegando que qualquer responsabilização por danos morais ou patrimoniais ocorridos em seus domínios equivalha à censura à internet na China “comunista” ou no Irã islâmico. A advogada Simone Kamenetz diz que a regulação da internet traz o desafio de resolver as equações “liberdade de expressão x proteção à honra; liberdade de acesso x direitos autorais”. E que o Marco Civil não o faz.

Não vejo Google nem Facebook como pobres rebeldes. Se algum desses gigantes leva a grana que deveria chegar ao bolso do Antonio Cicero, protesto.

Gosto que meu filho acesse uma gravação em segundos. Não quero que ele dependa de herdar meus direitos de autor. Mas tampouco que ele venha a ter de brigar por eles.

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