Mares de Moraes (ou: Aquelas coisas do Vinicius)

Ouvi rumores de que estavas por perto
e perto havia o mar e a tua companheira à deriva
e havia a lua e as canções que viajavam
entre a brisa, os coqueiros, os areais
e iam longe como longe o olhar do poeta atingia.

O poeta que nasceu e morreu em banhos de poesia e águas
bacias em que renasce a cada manhã na aldeia refeita,
nos carnavais, canaviais, nas feiras, fronteiras:
as semanas todas intensas
em calor, em sais e limões que estalam na língua:
o poeta que viveu tal qual todo poeta um dia quis viver.

Os mares e os dias e as sombras dos coqueiros
nas noites sobre o pensamento,
a opulência da palavra e os amores:
todos os amores possíveis e os amores impossíveis e vãos,
os que são múltiplos desafios
– mesmo que únicos e eternos no momento de ser.
Vinicius, sobre quais inexpugnáveis castelos de areia
e sobre quais esteiras de vime
ou tapetes voadores em órbita no Rio, em Paris ou Salvador
depositarei teu olhar em degradé de mar e céu?

Poeta, dá-nos a senha de ingresso em teu mundo,
deixa teu violão e a tua voz à porta e o fio de Ariadne
para que os poetas todos se guiem em meio aos caminhos
desse labirinto cheio de delícias e riscos:
o que busca a saída, mesmo que dela não se precise
ou não se dê ainda o encontro almejado.

Nas ondas desse mar que vem em vidas, inundas
de palavras perfeitas e cores perfeitas as tardes.
Em todas as praias atiças – à vista as garotas-esfinges –
essas que (de tão lindas) são de todas as praias:
Ipanema-Itapuã ou ilhas.
Ou filhas, como sabê-las?

Perfilha, poeta oceânico, e faz se encontrarem
nosso Atlântico e o Pacífico
de Neruda (em Isla Negra), de Gabriela Mistral, d’além-mares
e de onde se confirme um mundo pequeno
em que eras induvidosamente príncipe.

Teu mundo tão grande, teu universo vagabundo:
o que somente um poeta-poetinha ousaria percorrer
e toda a coragem que havia no teu peito não se repetiu
jamais em qualquer outro.

Vinicius, traz de volta teu instinto e teu desejo voraz.
Moraes, faz um derradeiro bis de todos os teus vícios.

Ingressa, poeta maior, nessa nau lunática,
põe o teu copo cheio e o gelo no palco eterno,
abre mais uma garrafa pra que o dia e a noite recomecem
e todos os homens e mulheres funcionem regularmente
e se reconheçam nessa tua imensa plateia.

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