Margaridas da marcha das Margaridas

Mãe, o que é as Margaridas?
Coisas da televisão, num sei! Exclamou a mãe que não sabia mesmo.
Não, mãe, as Margaridas da marcha das Margaridas? Insistiu.
São flores… sei lá! Já disse que não sei!
A mãe não sabia ao certo, nem queria arriscar, afinal nunca entendeu porque a comadre Zefa fazia tanta questão de gastar dinheiro para ir arranjar confusão em Brasília, quando o problema em questão era peculiar ao povoado.
Mãe, eu posso ir com a tia Zefa ver as Margaridas da marcha das Margaridas? Pediu com olhos grandes a menina, puxando a barra da saia da mãe.
Claro que não, aquilo lá não é lugar de meninas! Latiu a mulher, zangando-se com a insistência tola da criança.
A menina quis chorar, mas engoliu a ânsia quando surpreendida pelo olhar granítico da mãe. Tão pequena, mas já sabia da natureza humana o seu perigo.
Correu para a sala onde encontrou uma bonequinha suja e riscada com caneta esferográfica azul.
Você não vai sair de casa, está ouvindo? Disse a menina com a boneca que, de tão surrada, tinha a cara chorosa.
Irritada, a menina bateu a boneca contra o chão e a jogou com força num recanto de parede para que ficasse de castigo. Aí correu para se danar no terreiro.
Na cozinha a mãe divagava. Cabeça nas nuvens e as mãos e pés em movimento para dar conta de arrumar o jirau e deixar a comida pronta para quando o marido chegasse do mato. Lembrou-se de Zefa e da desculpa que arranjou para não dar o nome na viagem do movimento. “eu enjôo ônibus”, disse à amiga, mas era mentira, nunca andara de ônibus.
Depois, não haveria com quem deixar os afazeres e nem poderia levar a menina que dava muito trabalho. Tinha outros dois filhos maiores que ajudavam o pai e precisavam ir à escola. Estava tudo direito em sua casa, se convencia. Ela nem trabalhava. O máximo que fazia era cutucar uma horta no quintal e ajeitar a casa que é obrigação de mulher. O marido sim, esse é quem tocava o sítio sozinho e ainda lhe dava as coisas quando ela precisava.
Lá para as tantas deu falta da menina. Saiu gritando casa a fora o seu nome cumprido. Pôs as mãos na cabeça quando viu a desgraça no quintal de casa. A pequena havia passado a cerca e agora brincava entre os animais como se fosse um deles.
Agarrou-a pelo bracinho imundo e saiu puxando até a pedra da latada dizendo todas as raivas. Jogou-lhe água, passou-lhe sabão, esfregou-lhe o corpo com uma bucha vegetal e os pés com um caco de telha. Depois a obrigou a comer o que tinha no prato e ir deitar-se em seguida.
A menina comeu e foi para a redinha toda emburrada. Deitou-se e balançou até ficar embebedada de sono. Aí sonhou de mãos dadas com a tia Zefa andando num quintal chamado Brasília cheio de margaridas.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Aline Fernandes 23 de agosto de 2011 12:49

    E a Margarida não é uma frustrada e revoltada do blog natalimbecil que andou postando por aqui atacando o Serginho Vilar?

  2. Lígia Sacras 23 de agosto de 2011 0:15

    José, a menina e sua mãe palpitam de vida e a marcha das Margaridas está muito bem encaixada dentro da história, gostei mesmo, valeu a visita.

  3. Regiane de Paiva 22 de agosto de 2011 17:46

    Informatividade e literariedade, uma fórmula que nem sempre cabe numa escrita só. Mas vc, com todo o seu potencial com as letras, arruma tudo de um jeito, que arranca uma pontinha de lágrima dos olhos da gente. Vixe que essa menina me amoloceu o dia hj… um viva a Marcha das Margaridas! Bjs meu querido!

  4. Anchieta Rolim 22 de agosto de 2011 11:52

    E a parte do texto que mostra a agressão da mãe e o revide da criança na boneca então…

  5. Aridiana Dantas 22 de agosto de 2011 11:34

    Jota, mais uma vez me surpreendo com sua escrita, belo texto. Uma reflexão muito profunda que até me emociona. Amei, parabéns mesmo!

  6. Anchieta Rolim 22 de agosto de 2011 11:26

    Muito bom J. Paiva! Realismo total.

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