Marginal e inconformado, ele fez do cinema sua vida e sua missão

Por André Barcinski
FSP

Chamar Carlos Reichenbach de “cineasta” é pouco. Carlão, como todos o conheciam, não fez só filmes.

Escreveu sobre eles, exibiu-os, discutiu-os, atuou neles, deu aula sobre cinema e fez dele sua vida e sua missão. Não recusava um convite para falar de cinema ou para expor sua opinião, sempre franca e direta.

Reichenbach parecia gostar dos marginais, dos inconformados. Sempre fez e defendeu um cinema autoral. Preferia um fracasso arriscado à mediocridade inofensiva. Para ele, cinema sem risco era cinema menor.

Carlão foi uma figura fundamental do cinema marginal brasileiro e da Boca do Lixo. Depois, consagrou-se como um dos maiores autores de nosso cinema, dono de um estilo próprio que misturava erudição com uma busca constante pela comunicação com o público. Ele defendia que o bom cinema deveria ser para todos.

Foi, certamente, o cineasta mais cinéfilo que o Brasil já teve. Seu conhecimento assombrava qualquer um. Podia falar de cinema japonês por semanas. De Samuel Fuller, por meses. Do cinema marginal brasileiro, para sempre.

CONHECIMENTO

Durante uma retrospectiva dedicada ao trabalho de Roger Corman (“A Loja dos Horrores”, 1960) em São Paulo, Carlão assustou o cineasta e produtor norte-americano com o conhecimento que demonstrou sobre sua obra.

Corman ficou surpreso quando Carlão citou o drama racial “The Intruder” (1962), com William Shatner.

“Foi meu único filme que deu prejuízo”, disse Corman, conhecido por ter produzido mais de 300 filmes.

Carlão respondeu: “Mas é uma obra-prima. Meu filme predileto entre todos que você já dirigiu”. Corman ficou comovido.

ENERGIA

A morte de Carlão é irreparável. Seus filmes vão ficar, claro, como testemunho de seu gênio e talento.

Mas a empolgação com que falava de cinema, aquele jeito enérgico e quase que possuído com que ele discutia filmes e defendia seu ponto de vista, isso todos nós perdemos para sempre.

Só lamento que, nessa despedida, a emoção tenha impedido um dos grandes amigos de Carlão, Inácio Araujo, de escrever esse texto.

Se Carlão transmitia o amor ao cinema com seu estilo vigoroso e expansivo, o sempre tranquilo Inácio, comparsa de Carlão e inspiração de muitos de nós, nos ensinou a gostar do mesmo cinema, mas à sua maneira.

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