Maria

poltrona verde

Então, sentindo o corpo cansado, esticou-se na velha poltrona verde e pôs-se a refletir… Olhando o nada, olhando através da displicente e torcida posição da veneziana deteve os olhos no balanço regular e ritmado da natural paisagem à sua frente, atenta aos chocalhos que pareciam instrumentos pendurados na folhagem densa .Sem remorso ou tristeza, pensava, em como há grande diferença entre, ESTAR ou SER SÓ.

Há um conforto todo particular e uma felicidade indiscutível e incompreendida por muitos, coisa que em momentos de total maturidade pode ser sorvido como manjar: estar consigo; ter a capacidade de sentir satisfação “nesta viagem interior”… Desfrutar da sua total fidelidade, da sua nudez em corpo, alma e pelos. Ouvir o som do próprio ar obedecendo apenas ao apelo das suas vontades, sem relógio, sem pressa ou compromissos. Ter uma relação verdadeira com a “verdade”, este diadema de contas que nos faz contar em cada conta toda uma vivência com o que há de intenso dentro de cada um; seus medos, seus segredos, avaliar-se sem criticas alheias, examinando com cuidado E HONESTIDADE o calendário da sua existência em companhia da total consciência da fragilidade existente em nós.

Maria sentia uma sensação de liberdade, em que o instante que no passado lhe assustaria, hoje dá-lhe-paz… Uma certeza já tão batida e discutida – a que um dia, felizes ou o contrário- em certo ponto da vida, estaremos sós .

E no contexto final poder sem medo deste presente; a confiabilidade que só os anos e as experiências trazem numa bandeja às suas mãos.

Maria estica-se um pouco mais… Faz um ruído de risada, esfrega a nuca e depois de uns goles de água, dispersa-se na segunda reflexão…

SER SÓ(?).

É não ter com que conferir o riso, não ter com quem tomar uma bebida ,com quem compartilhar uma tristeza, dividar alegrias(a)
chorar sozinho, falar com ninguém.

Ter a mão na própria mão” se não há da sua uma irmã, e nas frias tardes, mesmo que aconchegantes, olhar em torno do silêncio e não deseja-lo perto.
Por a mesa para dois e tomar só o café com creme; não há açúcar que adoce. Olhar em volta de si e ser um “ser sozinho” , além de muito triste é como não respirar, se não há para quem, se não há quem amar.
Amor receber, compartilhar é um sentir sagrado .

A vida é um dom , um acontecimento ímpar de uma beleza inexplicável… Os contos da vida escrevem-se sozinhos? Ou os escrevemos lado-a -lado?(???) Não são para todos, iguais, os caminhos desta vida. Para cada um existe uma história, um conto, bem ou mal narrado
….(…) Como acordando de um sonho ruim, Maria levanta-se abre a janela, feliz sorri e constata o seu nome inscrito na primeira lista.

Estar só é maravilhoso. Escrever os contos da vida e ter personagens vivos … Não tem preço.

(Ednar Andrade)

(15/08/2011).

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