Maria no espelho

Da rede, no fundo da sala, vi quando Maria aproximou-se do espelho sem roupas. Sua imagem refletida atravessou outros três punhos até desenhar-se em meus olhos pequenos. Suas mãos finas e brancas deslizavam sobre os seios nus tão perfeitos. A hidratação do corpo expulsava um cheiro de frutas frescas, ampliando a urgência de meu coração.

Maria no espelho era a perfeição que eu não via naquele pequeno mundo.
Podia sentir seus dedos passeando por um caminho de hidratante, desde o abdômen até o pescoço fino e cumprido, num movimento que a obrigava a levantar a cabeça, realizando um balé sinuoso para o meu encanto pueril. Ela desconfiava de sua própria beleza e dizia isso quando, lentamente, molhava os lábios com a ponta da língua. Mas havia tanta dúvida em seu olhar que toda a pintura mudava de sentido ao contemplá-los.

No quarto, o amante aguardava as carícias que Maria deveria lhe dar. Ela sabia da impossibilidade de um amor dessa natureza. Da frieza de sua escolha e do julgamento dos pais que não a aceitariam como amante de homem comprometido. Do alto de sua completude, ele também se sentia um pouco triste por depender de outros braços para se fazer finalizado como homem. Gostava de ser como os brutos que via em seus currais. Desejava que não existissem as convenções e a obrigação de amar uma de cada vez. Porque, talvez, ele também amasse Maria, mas depositava nela apenas a ansiedade do prazer do corpo e do ego.

Maria no espelho alisava o corpo como quem acaba uma escultura perfeita. Ela vai entregar-se de graça a seu amante sabendo que, amanhã, de nada vai importar a sua beleza e que, provavelmente, falem dela por amar o impossível. No entanto, o único prazer imaginável à Maria é a possibilidade de ser desejada com tanta ansiedade. Ela pensa que seu único futuro é ser mulher de um homem e viver dele e de sua caridade de marido.

Enquanto ela percorre os seios com as mãos alheias, pensa tudo isso e sonha em vê-lo deixando a família pelo seu amor. Maria lembra-se da novela que vira no começo da noite e imagina-se tão bonita e importante quanto à mocinha de branco carregada ao altar sob a comoção dos convidados. Maria quer chorar também, mas sorri para si mesmo.

Da rede, embriagado com o cheiro de seu corpo, eu adormeço num sono de menino e tudo que me lembro pela manhã, quando acordo, são dos pomares que vi num livro da escola e de um cheiro vivo de frutas frescas.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Higo Lima 12 de setembro de 2011 10:04

    Ao desejo pelas “Marias”:

    “…e a alma aproveita pra ser a matéria e viver…” (Arnaldo Antunes)

  2. Anchieta Rolim 12 de setembro de 2011 13:27

    Paiva meu irmão, simplesmente MARAVILHOSO. Massa demais…

  3. Regiane de Paiva 14 de setembro de 2011 10:17

    Deslizamos pelo contexto de Maria através dos olhos do narrador personagem. “Da rede, embriagado com o cheiro de seu corpo, eu adormeço num sono de menino e tudo que me lembro pela manhã, quando acordo, são dos pomares que vi num livro da escola e de um cheiro vivo de frutas frescas.” Primo, amigo, sobrinho, um de seus amantes? Sonho, delírio? Fica a critério de quem o experimenta. Delicioso! Bjs querido!

  4. Maira Almeida 17 de setembro de 2011 9:46

    Estimado Jornalista,

    Mais uma vez você se supera, bela crônica. Retratar de forma tão singela a realidade dos “amores de muitas Marias”, que “ainda” buscam princípes que nunca virão. Parabéns!!!!!

  5. Eliana Klas 21 de setembro de 2011 9:28

    Adore sua Maria.
    Adorei seus sonhos e sua entrega.
    Parabéns. Sempre.
    Beijos.

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