Maria Rendeira

II – No mes de Maria

Maria fazia rendas com seus bilros mágicos. Era uma das tantas Marias
irmãs, tias e mães. Mulher de fibra curtida pela praia de Ponta-Negra.
Moradora da vila era a Maria do Simplício. A conhecia desde muito. A sua
barraca em Ponta-Negra era uma das minhas preferidas. Ali me sentia
abrigado e feliz. Muitas vezes deixava a bolsa e ia caminhar. Depois
tomava uma. Quantas horas passadas em sua sombra com as bênçãos de Maria.
O caranguejo, o caldo de ostra e peixe eram regalos divinos. Nos
rejubilava-mos com a sua culinária feita com muito carinho ao som das
marolas e Sol de Ponta-Negra. Há pessoas que fazem parte da nossa
culinária existencial. Maria era uma delas. O peixe-frito com macaxeira
era o almoço. Ali onde a vista não cansava de ver as meninas. Passava os
dias naquele vai-e-vem. A toalha ou esteira estendida na areia da praia
era a cama dos meninos queimados de sol e sal. A barraca do Simplício era
ponto de encontro de amigos. Nem precisava agendar. Era só ir e encontrar.
O final de semana estava garantido. Maria era como uma mãe. Quantas e
quantas gargalhadas Maria não ouviu. Quantos segredos e briguinhas.
Beliscões aos olhos indiscretos. Maria viu nossos filhos crescerem.
Simplício era baixinho e célere no atendimento. Atendia tão rápido quanto
tomava umas e outras. Morreu muito novo. Uma beleza de pessoa. A barraca
ficou. Maria ficou só. Não, Maria ficou com seus bilros e segredos. Maria
entretia as horas rendando. A encontrava nas feiras de artesanatos e
eventos culturais. Sempre tranqüila e sorridente. Quando passava ela
chamava, Joooããoooo. Era como se estivesse chamando um tempo que passou.
A renda era a sua companhia de todos os momentos. Tecia flores e armava
labirintos. Nem sabia que ela estava doente. Uma amiga falou de sua
doença e eu ia passar no quiosque de Simplício para saber notícias. Abro
o jornal e vejo um daqueles quadrinhos de morte. Simplício (in memorian)
e familiares chamavam para missa de sétimo dia de falecimento ocorrido no
último dia de 2008. O dia em que a praia de Maria se encheria de gente
para saldar o ano novo. Com Maria foi uma parte de mim e de Natal. Na
próxima feira de artesanato não vou mais encontra-la e as feiras perderá
um pouco seu encanto, assim como a praia de ponta-negra não é mais a e
mesma sem aquelas belas barracas. O quiosque de Simplício ainda está lá
perto do Morro. Lindalva era uma outra barraqueira que morreu há pouco
tempo num acidente de carro. Meu querido Toinho morreu. Ponta-Negra
definitivamente não é a mesma. E eu fico sem graça. Sem Maria. Natal esta
mais triste!

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