Marília Librandi-Rocha comenta artigos de Pécora e Dealtry

Por Marília Librandi-Rocha
PROSA E VERSO – O GLOBO

O artigo de Alcir Pécora no Prosa & Verso de 23 de abril veio acompanhado de duas excelentes ilustrações assinadas por Cruz, em que pequenas jangadas no mar revolto alegorizam os tormentos do escritor diante de seu laptop sentado em uma banheira e dentro de uma garrafa lançada ao futuro.

Na mesma edição, um artigo da antropóloga Cecília Campello do Amaral Mello nos ensina para que serve um rio, o Xingu, prestes a ser destruído pela usina de Belo Monte (o Belo Monstro que o governo brasileiro insiste em construir para destruir o que há de belo e que resiste).

Neste artigo, proponho comparar a importância da preservação do rio para as aldeias e para o sentido do Brasil no mundo à importância do debate sobre a criação de obras literárias que estejam à altura da herança cultural recebida de gerações passadas. Basta lembrar a comparação constante entre pescadores, marinheiros e narradores, para saber que o esgotamento de um recurso hídrico pode ser similar ao esgotamento narrativo diagnosticado no debate proposto por Pécora. Em ambos os casos, trata-se de modos de vida e de sobrevivência. Em ambos os casos, o valor se mede não pelo lucro suposto imediato, mas pela larga duração de uma tradição de histórias e vivências que se transmitem para gerações futuras a depender de escolhas presentes.

Por isso, o ”desenvolvimentismo predatório” de que fala Cecília em relação à usina hidrelétrica pode ser comparado à “inflação simbólica” de que fala Pécora em relação à usina literária. Em ambos os casos, a produção em grande escala em nome da mediania (sempre para benefício de poucos e a eliminação dos raros) gera o efeito da entropia que paralisa e não renova os recursos que utiliza.

No conto “A terceira margem do rio”, Guimarães Rosa fala disso: um pai abandona a família para viver no meio do rio em sua canoa sem nunca voltar a uma das duas margens possíveis, até o dia em que acena ao filho para que ele o substitua na tarefa de manter-se no fluxo contínuo do rio. O filho não atende o pedido e o conto é o relato de sua dor e culpa. Pode-se ler o impasse do filho como o impasse de todo escritor diante do rio da tradição. Não é possível ignorar o apelo. Para criar uma obra de valor é preciso entrar nesse rio, enfrentar os desafios dos antepassados, e ocupar o lugar da terceira margem, lugar simbólico que permite o diálogo e a transmissão de recados e legados entre mortos e vivos.

O mesmo vale para o impasse brasileiro diante da preservação do rio Xingu e de sua população nativa. A lição está nos textos das crianças ribeirinhas citados no artigo de Cecília, possível germe de uma futura criação literária.

A resposta de Giovanna Dealtry no Prosa & Verso do último sábado toca em ponto fundamental ao citar verso de Drummond: “E como ficou chato ser moderno./ Agora serei eterno”. A meu ver, esse verso confirma a necessidade de defender ao mesmo tempo a excepcionalidade da literatura e os estudos do contemporâneo. As duas posições não são excludentes. Estão unidas toda vez que se indaga quais textos do presente sobreviverão ao tempo.

A questão do “eterno” na literatura não é uma questão de fé, mas de angústia e ansiedade se lembrarmos a tese de Harold Bloom de que escritores não leem a literatura do passado como leitores comuns, mas a leem para saber como inserir seu próprio nome em uma tradição de valor que sobrevive à morte dos autores. O esforço para a criação de uma obra que incorpore e ultrapasse as que vieram antes e perdure na passagem dos tempos é enorme, e, não por acaso, a força da invenção poética se associa com frequência à tópica do pacto demoníaco. Essa tarefa, porém, se torna ainda mais difícil quando o futuro desaparece do horizonte, ameaçado que está pelas catástrofes ambientais.

No corpo inconsciente de nosso tempo sem tempo a criação literária tem seu epicentro gerador abalado: por que lutar com forças sobre-humanas para criar uma obra, se o futuro parece desaparecer à medida que nos aproximamos dele e, junto com ele, a questão da duração? Me parece que no debate de Pécora faltava apontar esse dilema temporal atual. As obras, então, se produzem efêmeras, como se aceitassem o veredito de sua pouca duração. Como disse José Castello na mesma edição passada do Prosa & Verso, a inscrição é sempre frágil, mas é preciso não aceitar o pouco fôlego como sinal dos tempos.

Por isso também acho que não se trata de responder dizendo que há escritores vivos e produzindo ou que ainda é cedo para avaliações. Claro que os escritores estão aí, que os há excelentes, desafiadores, inquietos, labutando as suas próprias angustias e ansiedade e, sobretudo, arriscando-se em tempos ultra difíceis de dispersão, ao oferecer seus textos como pequenas jangadas à deriva no mar bravo. O valor da crítica de Pécora é a de por em crise, apontar o sentido de responsabilidade absoluta com o verbo literário, e lembrar o passado reprimido como condição para a projeção no futuro.

Como ele disse em uma entrevista da qual participei juntamente com Eduardo Milan, Cassio Borges, Alcino Leite Neto e Paulo Franchetti, recém-lançada no caderno “Floema”, dedicado ao tema “teoria da literatura e juízo de valor estético”: “Quando se trata de literatura, os mortos estão todos em atuação e suas obras controlam os leitores de hoje melhor do que os vivos”. De outro lado, sua hipótese abre estimulantes paradigmas de leituras quando aponta para outras potencialidades da literatura que se encontram hoje em textos ensaísticos e filosóficos, ampliando o espaço do literário para aquilo que Alberto Pucheu chamou de “fronteiras desguarnecidas.” Entrar no rio da literatura é desguarnecer-se de fronteiras (sobretudo as temporais) e ocupar um lugar na terceira margem.

MARÍLIA LIBRANDI-ROCHA é professora na Universidade de Stanford, autora de “Maranhão-Manhattan — Ensaios de Literatura brasileira” (7Letras)

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