[Conto] Marina

As ondas, num movimento incessante, batiam fortemente nas pedras.  Era a hora do pôr do sol. Marina olhava fixamente para o contraste da brancura das ondas com a cor escura das pedras. Naquela solidão, todos os seus sentidos aguçados: o vento, a fúria das águas; a luz do sol esmaecida, tingindo o céu de cores; o cheiro da maresia.

Estava longe, isolada, desconectada.  Só ela e seus pensamentos.  Era uma dor dilacerada: um punhal cravado no peito.

O mar agitado! Também ela carregava dentro de si um mar em alvoroço. Queria águas serenas. Mas sua natureza era assim, de uma fúria, de uma sofreguidão. Um mar revolto.

Em outros tempos, essas ocasiões foram tão boas. Vinha no período de veraneio. Gostava da solidão. Pegava a estrada e o destino indicava este lugar. Estava tudo ali: os livros, os CDs, suas telas. Escrevia durante horas.  Contos inacabados e cartas que nunca postava.

Houve dias em que sua alma se revelara serena. Foi quando acreditava que tudo poderia acontecer.  Fase em que não sentia medo de nada: se não estivesse satisfeita, virava a mesa.

Sua memória inquieta recupera rupturas, fragmentos, desafetos…

Foi feliz, sim, por um tempo, mas um dia acordou com um gosto acre na boca. Não reconhecia mais seu marido. Naquele olhar em que já vislumbrara tantas luas, agora somente havia uma noite escura, densa.

O marido adorava pássaros. Trazia-os presos.  Certo dia, ela começou a observar um dos pássaros.  Notou que ele dava voos fortes, como se desejasse quebrar as grades: queria fugir.  Quanta inquietação! A asa já estava ferida de tanto bater vigorosamente. Marina levantou-se e foi até o pequeno cárcere. Abriu e o libertou.

De repente, todas as gaiolas faziam enorme barulho. Os pássaros batiam intensamente as asas, sangravam. Angustiada, foi abrindo as portinholas, libertando todos. 

Ela era também mais um daqueles pássaros, a se debater, numa gaiola dourada. Suas penas sangravam, batiam forte, desejando libertar-se daquelas paredes: das visíveis e das invisíveis.

Defrontou-se com o espelho. Ao ver uma mulher de olhos vazios, espatifou-o em mil pedaços. A mão sangrava.  Procurou seu rosto nos estilhaços; em cada fragmento dele. Queria compor aquelas peças e foi juntando cada uma, formando um mosaico. Viu-se ali: fragmentada, dividida. Quem era?  As lágrimas misturavam-se ao sangue… Doía-lhe tudo. 

Assim, como os pássaros, queria se  libertar, alçar voo. E um dia sem avisar, bateu asas. Procurou refúgio nesse lugar longe de todos. E ali estava procurando colar os cacos. Um processo doloroso, mas libertador.

Sentiu que estava mergulhando profundo. O que até então se vislumbrava era a ponta do iceberg. No fundo, uma montanha de si submersa.

Aspirou o ar marinho. No alto, homens-pássaros de asas coloridas sobrevoavam. Sentou-se. Colocou um punhado de areia na mão. Os grãos escorriam lentamente entre os dedos. Estava pronta para recomeçar. O mar agora começava a serenar. Arco-íris nos olhos.

Comments

There are 6 comments for this article
  1. Karoline Castro da Silva 17 de Maio de 2019 13:04

    Belíssimo conto, muito inspirador e reflexivo. Existe muitas Marinas aprisiobadas,que anseia liberdade e encontra a si mesma. Parabéns, Gil!!

  2. Karoline Castro da Silva 17 de Maio de 2019 17:12

    Que excelente conto uma trama bema narrada, com um final espetacular. Creio que muitas mulheres ao ler consegue se enxergar nessas linhas, reflexivas e poéticas. Parabéns, Gil!

  3. Karoline Castro da Silva 17 de Maio de 2019 17:21

    Mas ficou muito lindo o conto. Amei de alguma forma ainda existe muitas mulheres aprisionadas, querendo se livrar do cárcere do machismo, preconceito e intolerância da sociedade. “Queremos romper as gaiolas, levantar asas e voar.” ✊

  4. Eneida Cristinna 17 de Maio de 2019 17:59

    A hora da ruptura da gaiola é ímpar para o ” pássaro “. Marina, é emoções em revoada, Gilvânia Machado. Parabéns. Lindíssimo conto!

  5. Tânia Souza 18 de Maio de 2019 9:09

    Dá necessidade de se abrir as gaiolas. Adorei.

  6. Aila Mag 22 de Maio de 2019 7:52

    O contro traduz a realidade de muitas mulheres em nosso país. Nem todas têm a força necessária para buscar saídas.
    Vejo com a alegria que aos poucos, as mulheres vêm substituindo a competição pela construção uma cadeia de apoio emocional, empática e fundamental. Parabéns, Gil! Beijomeu!

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