Mário além de 22

Por José Castello
O GLOBO

A distância de quase um século autoriza uma arriscada reflexão: Mário de Andrade não cabe no Modernismo de 22. Foi, provavelmente, muito maior do que ele. Cidadão do real, Mário esteve muito além dos manifestos e ideologias que sustentaram o movimento modernista. Foi um homem apegado ao real, que gostava de pensar as relações entre a literatura e o mundo. Alimentava-se não de um projeto estético, mas da realidade e de suas contradições. Não foi, porém, um retratista simplório. Tampouco um artista militante, ou um panfletário _ como Oswald. Não acreditava em uma relação mecânica entre o mundo e a arte. Também nunca aceitou o papel de “pensador” do modernismo. Via-se, antes de tudo, como um artista: a invenção era sua tarefa. O que não excluía o pacto com a vida que sustentou sua escrita.

Em uma entrevista ao “O Jornal”, do Rio de Janeiro, no ano de 1935, Mário de Andrade recusa o papel que _ ainda hoje _ muitos lhe atribuem de “intelectual do modernismo”. Afirma com ênfase: “Não sou crítico, não sou culto, tenho horror de me chamarem de indivíduo culto só porque leio um bocado. Na verdade, sou artista, sou poeta, sou romancista, mas o resto não e não”. Essa opção radical pela arte surge um tanto esmaecida sempre que se pensa na figura de Mário de Andrade. É certo que não foi um agitador de idéias como Oswald. Mais cauteloso e mais arredio, concentrou-se em sua obra e em seu caminho pessoal. Um caminho _ como se vê em “Macunaíma”, seu romance mais célebre _ que, desprezando os manifestos, se lançava com fúria sobre a realidade.

Mário tinha uma visão social da arte. Na mesma entrevista, ele nos diz: “Mesmo dentro da própria arte é preciso a gente socializar. A arte é social. A obra do artista não tem preço, não se vende, é patrimônio comum. A remuneração, recebe-a o homem, mas não o artista”. Suas palavras ecoam dissonantes e ásperas em um mundo _ o nosso _ no qual a arte é tratada, antes de tudo e cada vez mais, como mercadoria. Nesse sentido, a lição de Mário parece um tanto esquecida. Sua aposta na arte como um instrumento de interrogação do mundo. Sua crença na arte como algo tão real quanto um avião, ou um sapato. A certeza de que o artista não pode fugir do mundo que o cerca.

No mesmo livro em que encontro suas palavras _ “Entrevistas e depoimentos”, organizado por Telê Porto Ancona Lopez para a editora T. A Queiroz no ano de 1983 _, deparo com uma entrevista que concedeu a Carlos Castelo Branco no ano de 1939. Nela, Mário afirma a dupla condição da arte: se de um lado ela tem uma inevitável função na luta social, de outro não pode abdicar de seus compromissos estéticos, ou arte não será. Recorda do Inferno, de Dante, do Quixote, de Cervantes, e do Guerra e Paz, de Tolstoi, para dizer: “A arte pode ser evidentemente um instrumento de combate e aí estão admiráveis instrumentos de luta”. Mas ressalva: “Ninguém pode negar que todos esses combatentes foram admiráveis artistas e que é justamente a beleza de exposição formal do seu pensamento que eles adquiriram o valor de combate que têm”. Em resumo: não podemos separar função social e função estética, ou a arte se enfraquece.

Ainda na mesma entrevista, Mário reafirma: “Eu também estou convencido, jamais neguei em toda a minha vida, que a arte tenha um valor social”. Talvez por ignorar essa dupla condição, a crítica sempre teve muita dificuldade para fixar a imagem de Mário de Andrade. Preso às tempestades de seu tempo, vulto arredio às classificações e às reduções, ele até hoje ocupa, no cenário do Modernismo brasileiro, o lugar de um enigma. Os críticos, quase sempre, se encantam mais com a figura de Oswald de Andrade que, panfletário, enfático, dogmático, nunca deixou dúvidas a respeito de quem foi. Para complicar as coisas, o próprio Mário se definiu, sempre, não por esse ou aquele rótulo, mas por uma profusão dispersa de etiquetas _ que terminavam anulando umas às outras. “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta”, dizem os versos célebres, resumindo a armadilha que nos deixou.

Difícil fixar a imagem de Mário, um artista que se definia mais pelo que procurava do que pelo que tinha. A esse respeito, vale lembrar a avaliação do crítico Álvaro Lins que, em “Os mortos de sobrecasaca”, assim o definiu: “Em nenhum poeta moderno mais do que no Sr. Mário de Andrade se poderá sentir essa contradição própria da poesia moderna: a de um pensamento que procura a sua forma”. A forma _ a estética _ está no coração da obra de Mário. É sua marca de artista _ algo que o afasta da imagem pura e solene do pensador. Algo que vai muito além, ainda, da figura do militante. Sua paixão pela forma é obsessiva. Ela está, de fato, acima de tudo. Mas é a realidade que a sustenta e a alimenta.

Foi um artista muito rigoroso com seu ofício. No ano de 1943, dedicado a reescrever Amor verbo intransitivo, romance de 1927, Mário afunda na frustração. É um eterno insatisfeito, com um grau de exigência que nunca conseguirá atender. Em carta ao jovem Fernando Sabino, ele diz: “Cortei muita coisa e talvez pudesse cortar mais. Mas não tenho tempo para refletir, nem ânimo. Carecia reescrever a máquina todo o livro e não tenho coragem”. Depois de revelar que acrescentou um capítulo novo ao romance, e sempre descontente, ele arremata: “Estou meio desgostoso com o livro, mas não muito animado para reescrever tudo. Vou passando bem mal, meu irmãozinho”. O perfeccionismo, a aposta inegociável na forma, o fazia sofrer. Mas era ela, também, que o fazia escrever.

Pelo mesmo motivo, Mário nunca esteve satisfeito com seu mais célebre romance, “Macunaíma”, de 1928. Em outra carta, diz a Sabino: “Eu tenho bastante saúde mental para reconhecer que a vida é uma luta, e que nesse jogo do Macunaíma eu perdi de um a zero”, escreve. E arremata, sem nenhuma autopiedade: “Macunaíma é uma obra-prima que falhou”. Resume sua relação com o livro: “O que posso lhe jurar é que Macunaíma foi detestavelmente doloroso para mim”. A insatisfação _ a busca enérgica da perfeição_ dá a marca do artista. Homem múltiplo e sempre inquieto, nervosismo que levou, certa vez, o crítico Antonio Candido a escrever: “Há, com efeito, muitos Mários de Andrade além dos conhecidos”.

O comprometimento radical com a realidade fez dele um dogmático. Ao contrário: o afastou do dogmatismo. Nunca o impediu de apostar no caráter particular da arte e em seu compromisso impossível com a perfeição. Dívida impagável que, na verdade, o energizava. Foi um homem tão desconfiado que desconfiava até da própria desconfiança. Em nova carta a Sabino, de 1942, ele escreve: “Eu sei o que é a desconfiança de si mesmo: os maiores a têm. Mas esta pseudo-desconfiança na verdade é confiança, a gente sente que podia dar mais, é insatisfação de si mesmo, é um sofrimento horrível causado justamente pela confiança que temos em nós”. Mário, o desconfiado, sempre oscilou entre a arte e a vida. Alternância frenética que, se o desgastava pessoalmente, alimentava sua criação.

Não é possível resumir Mário _ isso seria anulá-lo. Tinha consciência da dupla condição da arte: refém de seu tempo, ela é, também e ao mesmo tempo, uma aventura individual. Nenhuma arte pode “dar certo”: ela é sempre o resultado de um destino inconciliável. E isso dói. Em carta a Anita Malfatti, de 1939, ele escreve: “Quando quero fazer arte, mas arte de verdade, arte vertical, só posso fazer arte minha, sem buscar em estilos ou feitos alheios ou do passado, a minha função. Que esta só pode ser minha e, por ser minha, é do meu tempo”. Compreendia e aceitava essa contradição. A coragem foi uma de suas marcas.

Em meio às contradições _ e sem a pretensão de resolvê-las _, Mário se apoiava, antes de tudo, na obsessão pelo trabalho. Apoiava-se no fazer. Em carta à mesma Anita, de 1925, ele diz: “Não resisto mais e escrevo. Mas fique sabendo que estou roubando trabalho. (…) Não é por causa das farras não que tenho deixado de escrever para você, é por causa do muito trabalho. De repente a ocupação se acumulou de tal forma que não sei mesmo para que lado me virar”. Tinha diante de si tarefas impossíveis. Mário sempre preferiu a instabilidade, o ecletismo e o sincretismo que caracterizam a alma brasileira. Não foi um purista _ foi, a rigor, um artista impuro. Talvez por isso, e apesar de sua grandeza, sua imagem ainda hoje careça de nitidez.
Mário nunca estava de bem consigo.

Já autor de “Paulicéia desvairada”, de 1922, ele escreve a Manuel Bandeira para falar de seu desconforto com seu tempo. O artista múltiplo, atento a tudo, em constante inquietação e transformação, se sente, ao mesmo tempo, deslocado e sozinho. Está em tantos lugares diferentes que já não parece caber em nenhum. Diz Mário: “Creio também que o que está me fazendo mal são as companhias. Meu grupo, amigos, camaradas, todos ricaços, sem preocupações”. Está incomodado não com a riqueza dos amigos, mas com seu alheamento para com a realidade. “Deus que lhes conserve a riqueza. Mas há conflito”. Mais à frente, se pergunta: “Preciso largar dessa gente. Mas como? Se são os que eu amo, os que me amam? E não é impossível inculpá-los de qualquer coisa. Não são indiferentes. Já o demonstraram. Mas eu não aceito, sou incapaz de aceitar. Daí o conflito”. É do conflito que ele se alimenta. A realidade, com sua agitação frenética, o deixa em estado de choque. Desse impacto, arranca sua escrita.

Mário foi um homem do mundo. Um homem que nunca temeu dissolver seu espírito nos paradoxos da existência. Por mais doloroso que fosse, não pretendia se resguardar. Não podia se poupar _ lançava-se vorazmente sobre as coisas. Essa aposta radical na vida incluía, por certo, a dor. Para ele, a arte era, antes de tudo, uma questão de sensibilidade. Pensava Mário que, no fim da contas, tudo se decide no campo da sensibilidade. Em outra carta a Bandeira, de 1932, ele reflete: “O que vem da sensibilidade e vai para a sensibilidade por ela tem de ser julgado. Ou por outra: ela que diz se está ressentindo, se está reconhecendo. (…) O artista fatal, pondo a força, mínima, nula ou grande, da sua sensibilidade numa obra, só pode julgar essa força na medida da sensibilidade que possui”. Cidadão do mundo, Mário sabia que cada artista tem a sua própria medida. Apostava, assim, na fidelidade a si. Difícil, certamente, sustentar essa lealdade habitando uma alma tão inquieta.

Para Mário, a força da literatura se define pelo sacrifício de si. Mais de uma vez, ele criticou o “cultivo imoderado do prazer” que se disseminou entre os modernistas de 22. Trabalhador incansável, Mário terminou por se afastar, no ano de 1929, de Oswald de Andrade. Decepcionado com Oswald, a quem dizia “odiar friamente”, ele se declarou, certa vez, mais próximo de Jorge de Lima, o poeta católico, a quem via como um intelectual “dominado pela prudência”. Prudência para não permitir que nenhum aspecto da vida lhe escapasse. Sabedoria para saborear sem repulsa os mais fortes sabores de seu tempo. Talvez por isso a imagem impecável do Mário modernista tenha se tornado, no fim das contas, uma camisa de força. Talvez por isso, ainda hoje, ele pareça tão vivo.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. marcos silva 5 de julho de 2015 4:11

    É claro que Mario de Andrade tem uma vida intelectual e artística que vai muito além de 1922! Quem ainda o reduz a 1922? Ou estamos diante de um abrir janela previamente arrombadas?

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