Mário e seu riso aberto

Por Luciana Sandroni
BLOG DA COMPANHIA

Antes de rascunhar o texto do livro O Mário que não é de Andrade, como sempre, preparei o terreno: espalhei, sobre a mesa, os livros do Mário, sobre a semana de 22, suas cartas, tudo. Na parede, fiz um mural com fotos do escritor com a família, com os amigos, na praia, no meio do povo, em sua casa, entre os livros, sempre rindo. Aquele riso aberto, franco, aquela simpatia já me contagiava.

Conhecia a obra do escritor homenageado da FLIP 2015 como artista e intelectual, mentor da Semana de Arte Moderna, autor de Macunaíma, pesquisador da cultura popular, a atuação no Departamento de Cultura de São Paulo. Era fã de carteirinha, desde a adolescência. Mas e a pessoa? Precisava ter uma certa intimidade para inventar o meu personagem. Queria conhecer o Mário do dia a dia, como filho, irmão e amigo.

Fui então, reler suas cartas — Mário escreveu milhares de cartas para os amigos; dizia que sofria de “gigantismo epistolar”. São cartas íntimas, bem à vontade, sem salamaleques, “cartas de pijama”, como ele dizia. Em, Mário de Andrade — Cartas a Manuel Bandeira, ele escreve sobre uma festa futurista:

“…em vez de voltar do baile à uma hora, voltei às seis e trinta, pleno dia. Esteve estupendo. (…) O Segall pedira 3 contos pra decorar três salas. As outras decoradas por não sei quem, muito idiota, sem alegria, sem beleza, porcaria. Em compensação a sala do Segall era maravilha. Um espírito, um colorido, uma leveza, uma alegria estupenda. Em vez de flores, vegetais comestíveis! Uma pândega.”

Aquela descoberta me espantou: então o célebre escritor ia às festas e voltava de manhã! Mário de Andrade, o papa do Modernismo se divertia a valer… Em A lição do amigo, cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, o artista comenta sobre a mesma festa e dá um “puxão de orelha” no poeta, que devia ser bem sério:

“Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma boa tocata de Bach… (…)”

As fotos do meu mural refletiam bem aquela alegria de viver. Com a leitura dessas cartas, Mário foi se tornado mais próximo, mais real.

Mas, e o Mário como filho e irmão? O Mário em família? Lendo o livro A imagem de Mário, organizado por Telê Ancona Lopes, descobri que seus contos são baseados na própria infância e na adolescência. Numa entrevista, ele comentou:

“Aliás não tenho nenhum personagem nos meu livros que seja inventado por mim. Todos eles existem ou existiram”.

Mário era de uma família de classe média de São Paulo. Cresceu com os pais, irmãos, primos e tias. Vi esse cotidiano no conto Peru de Natal, que fala sobre o primeiro Natal depois da morte do pai:

“ (…) Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas ‘loucuras’. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de ‘louco’. ‘É doido, coitado!’ falavam. (…)”

Depois da leitura desses contos, já me sentia bem íntima do Mário e percebi que até nas conferências ele era autobiográfico. Na famosa palestra “O Movimento Modernista”, ele comenta como teve a ideia de escrever seu primeiro livro de poesias modernistas, Pauliceia desvairada. Ele havia comprado uma escultura de Brecheret, uma “Cabeça de Cristo” e, quando a levou para casa, a “parentada” correu para ver:

“(…) E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Estrilava a senhora minha tia velha, matriarca da família. Onde já se viu Cristo de trancinha! (…) Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era de bater. (…) Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título que jamais pensara, ‘Pauliceia desvairada’.”

Através dos seus poemas, contos, romances e cartas fui chegando perto, me aproximando de um Mário menos “monumento” e mais amigo. E, a partir daí, construí o meu Mário personagem. E, claro, sempre contando com aquele riso aberto, franco, das fotos do meu mural.

* * * * *

Luciana Sandroni nasceu no Rio de Janeiro em 1962. É autora de O Mário que não é de Andrade, publicado pela Companhia das Letrinhas. Autora de vários livros infantis e juvenis premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Luciana também recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil pelo livro Minhas Memórias de Lobato, e indicação para a lista de honra do Ibby, International Board on Books for Young People. Seu livro mais recente é Memórias Póstumas de Noel Rosa, publicado em 2014.

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