Marize Castro: 32 anos de poesia

Completam-se, em 2016, trinta e dois anos do lançamento do primeiro livro de Marize Castro, Marrons Crepons Marfins, publicado pela Editora Clima em parceria com a Fundação José Augusto. Reconhecida como uma das melhores poetas do Rio Grande do Norte, Marize Castro faz parte de uma geração que renovou a nossa tradição poética, ao lado de Socorro Trindad e Diva Cunha. Foi esse trio que, praticamente, deu, em sua produção, um grito de liberdade dentro das propostas do movimento feminista, em face da injusta situação da mulher na sociedade.

Tendo sua “liberdade” cerceada por anos de predomínio machista e silêncio, elas conseguiram finalmente espaço para falar de seus corpos, de seus desejos, de seus direitos, da forma que achavam mais conveniente. Além de quebrarem um paradigma, a nível local, expressaram o rompimento com o fazer poético provinciano, numa perspectiva de independência literária da mulher. E, abordando o tema do feminismo com rara expressividade, alargaram as fronteiras da militância feminista em solo potiguar. O eu lírico utilizou intensas sugestões verbais, e revelou anseios e desejos, numa notória evolução poético-feminina.

As três poetas foram pioneiras, no Estado, deixando de lado, temáticas sentimentais – o amor, o sertão, a solidão, a família – para tratar em seus versos, da emancipação da mulher. A escritora Socorro Trindad, por exemplo, publicou, em 1982, o livro Uma Arma Para Maria, espécie de prosa poética em que é perceptível a mudança na linguagem, que põe em sua escrita um caráter nitidamente feminista. Uma arma em defesa da mulher, a começar pela própria introdução do livro, dedicado a todas as mulheres, com sua mensagem existencialista e socialista em prol da igualdade entre os sexos. A obra de Socorro Trindad traz efetivamente uma linguagem nova sob a perspectiva de temas até então não encontrados em versos femininos locais. Vejamos um exemplo nos versos:

QUAL É A TUA, MARIA ANA?

Até quando, Maria
continuarás em cima do muro,
assistindo a tudo
como mera expectadora?

——

AMANTE
Gosto de ser a outra
mas com outros….

——

FEMININO
A boceta também é uma flor

——

Outro exemplo, este da poesia de Diva Cunha:

Apanho na minha mão
a tua mão
ligeiro fruto
sumarento:
chupo

No meu lado noturno
há uma lua em chamas

Tenho que me revelar
antes que eu fique doida
antes que eu fique santa
assim mortal
serei igual
a tantas

A poesia delas revela, através de palavras sugestivas, um lirismo de caráter mais feminista, uma libertação, um brado e o anseio de serem ela mesma, donas do seu corpo e dos seus desejos. Socorro Trindad dá início, pelo menos com mais nitidez, a esse processo de transição na poesia potiguar, o qual vai se concretizar com Marize Castro, na época com apenas 21 anos de idade, em seu livro de estreia Marrons Crepons Marfins (1984) e Diva Cunha com Canto de Página (1986). Salientemos que Diva, embora só tenha estreado em livro no referido ano, há muito tempo já vinha publicando poemas em jornais e periódicos, como, por exemplo, um poema na coletânea “Grande Ponto”, do Laboratório de Criatividade da UFRN (1981).

Nas primeiras páginas de Marrons Crepons Marfins, de Marize, fica evidente a marca de um trabalho sob nova perspectiva poética, onde a mulher não vai mais usar seus versos como se fossem anotações intimas, mas, sim, como um grito de liberdade.

VINHO

Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reinventar
essa chama
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero
vermelho
do porto
para aportar
as paixões
que me dividem

Para Tarcísio Gurgel (2003), Marize Castro trouxe uma produção lírica invulgar, contendo questões como cidadania, eroticidade, ousadia de dizer o que bem entendesse, com autonomia não apenas estética. A poeta rompe os padrões locais, especialmente, no modo como vê o uso erótico do corpo feminino. Sem submissão, sem renúncias de sua identidade, o eu lírico consciente de seus desejos e senhor de si mesmo. Observamos que, no seu referido livro, lançou mão da combinação de elementos trivialmente utilizados pelas suas antecessoras, e de maneira eficaz, remete o leitor a novas significações, ao mesmo tempo em que aponta para uma linguagem mais feminina e erotizada.
Outro exemplo da obra poética de Marize Castro a seguir:

PREDESTINADA

Nua, às três da madrugada,
ainda escavo minas
instaladas em minha alma.

Nesses versos, ao utilizar como título a palavra “Predestinada”, o eu-lírico é um ser limitado ao destino das mulheres, que é servir ao homem e seus desejos sexuais. Ela é predestinada à escravidão sexual, à infelicidade de não ser dona do seu corpo, às 3 da madrugada, ela ainda está nua, sem vontade de se entregar, cavando buracos em sua alma, até ficar totalmente oca, sem personalidade, sem vida. A autora joga com palavras, no intuito de demarcar a presença feminina, direcionada ao anseio de não reprimir seus desejos.

Marize Castro descreve circunstâncias várias em versos que mostram partes do corpo feminino supostamente postas em contato intenso, e assim denota quanto o erotismo feminino evoluiu e destacou-se na poesia norte-rio-grandense. A nova geração de escritoras, a que Marize pertence, será de extrema importância na construção do novo discurso literário feminino e potiguar, trazendo, sob outro aspecto, além da bandeira feminista, o erotismo como libertação.

Marize Castro vai ultrapassar as barreiras da província e transformar-se numa intérprete que representa a mulher local, dentro do universal com seu valor existencial, na revalorização totalizante do segundo sexo e de como ele é visto. Este é sem duvida um dos elementos motivadores de sua poesia.

A história da literatura feminista, entendida esta como uma postura politico- filosófica, em solo potiguar, começa explicitamente, portanto, nos anos 80. Na obra das poetas em referência, percebemos mulheres que deixam de escrever como se estivessem fazendo anotações num diário intimo; mulheres que deixam de falar apenas do seu contexto doméstico, de sua vidinha prosaica. Quando elas falam do mundo externo se impõem, donas da própria voz. Isto, na perspectiva histórica, faz toda uma diferença.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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