Marize Castro: “desamparada pelo esplendor”

Por Hildeberto Barbosa Filho
Foto Rodrigo Sena

Não se faz o poema sem uma aguda consciência acerca das possibilidades da palavra. No poema, é preciso que a palavra, em seus aspectos fonéticos, morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos, adquira uma singularidade tal que, mesmo mantendo a significação ordinária do uso comum, traga, em si, e no contexto poemático, sentidos novos, insólitos, surpreendentes.

Se o poema pode ser compreendido como uma operação de ordem verbal e estilística, como um objeto de linguagem, nem por isto deixa de se constituir num movimento expressivo que se abre para a vida e para o mundo, numa relação constitutiva em que a função estética convive simultaneamente com a função comunicativa, contendo e segregando, ao mesmo tempo, como assinala Octavio Paz, “uma substância impalpável, rebelde a definições, chamada poesia”.

Ocorre-me esta reflexão, depois de ler e reler os poemas da norte-rio-grandense, Marize Castro, reunidos em “Habitar teu nome” (Natal: Una, 2011). E por que? Ora, porque o seu discurso lírico, em que pese a técnica inventiva no trato dos vocábulos, na incidência metafórica e, sobretudo, no desenho imprevisível das imagens poéticas, faz questão de preservar os predicados da poesia que se modulam na particularidade do olhar, no modo inesperado de captar e exprimir experiências, quer objetiva quer subjetivas, e numa sensibilidade que escapa ao peso do lugar comum, às formas convencionais e às situações automatizadas.

Para habitar este nome, ou seja, para conviver intimamente com esta poesia que se nos oferta numa espécie de androginia verbal atravessada por paradoxos e oximoros, deve-se parar, de saída, no paratexto da epígrafe de Octavio Paz, na tradução de Haroldo de Campos : “[…] é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível”.

Como um sinal de alerta, estas palavras como que preparam a expectativa da recepção face a uma formulação poética, a princípio fechada, hermética, refinada em sua economia verbal e no seu impulso construtivista, porém carregada de sugestões e efeitos de sentido que nos põem no miolo mesmo das vivências afetuais. Ora, num percurso sutil em que a carga erótica da palavra se desloca do motivo concreto – o corpo, e sobremaneira o corpo feminino – para algo que o transcende; ora num diálogo intertextual em que o eu lírico, refletindo sua perplexidade e seu espanto diante do mistério do ser, faz com que a poesia – talvez este nome desabitado, “este nome dado ao vaporoso nada”, conforme Baudelaire – problematize a condição humana e tangencie os subúrbios da beleza.

“{…} te ter dentro de mim / é o que as pessoas neste imenso / mundo chamam / de céu” (p. 47), são versos que podem elucidar, na componente do erotismo, a passagem do físico para o intangível, do concreto para o abstrato, do real para o sublime, a testemunhar que a poesia, como afirma Bachelard, “é uma metafísica instantânea”.

Já no poema “dentro” (p. 20), o corte intertextual tende a ampliar o raio de significação de uma circunstância comum, no caso um voo, uma viagem, que se distende numa metáfora-síntese intensamente provida de sugestões poéticas. Citemos alguns versos, a título probatório: “dentro deste pesado pássaro / tudo arde // sobrevoo Casablanca, Marrakesh, Agadir // não vim para ficar intacta / busco a nódoa, as fezes, o erro / {…] inclino-me melhor para enxergar este destino: / uma mente andrógina escrevendo versos / desamparada pelo esplendor / {…] mas não desisto: / no meu jardim, Rosa e Pessoa / reinam”.

E reinam, eu diria, no paradigma que fornecem pela conjugação e urdidura das categorias poundianas da fanopeia, isto é, a espessura imagética, e da logopeia, ou seja, o complexo ideativo, que pode ser exemplificado em tantas passagens emblemáticas dessa poesia “pétrea”, como diz Nelson Patriota; “selvagem e indomável”, no dizer de Henrique Marques-Samyn. Se de Rosa é possível verificar o processo de transfiguração mítica da linguagem, principalmente se nos ativermos ao tecido das imagens, de Pessoa, aproveita-se, dentro da autonomia vocal de uma poeta forte, a dialética do pensamento, sobremaneira se focarmos a lógica das antíteses e das contradições que mobiliza o andamento dos versos.

No poema da página 54, enuncia-se: “entre orquídeas, esquisitas alegrias / banham-se ao meio dia // se há mesmo um Deus, lá está Ele / implorando-me: leva-me contigo”. Imagem e pensamento se fundem, fazer e dizer se equilibram no limite exato da estesia. Vou dar mais um exemplo, transcrevendo o poema da página 26 como fecho deste parágrafo: “se me distancio, perco-me / em mar aberto, acerto-me // furtiva, saúdo a morte // para me tornar oásis / falta-me sorte // entre espectros, sou alegria / a loucura é minha bússola // única guia // se me aproximo, atinjo-me / asas me faltam, mas voar / é meu agasalho // – meu mais crível lastro”.

Ainda há pouco toquei na questão do hermetismo desta poesia. Devo esclarecer, no entanto, que o hermetismo, aqui, não se confunde com obscuridade. A levarmos em conta a tipologia que o crítico italiano Alfonso Beradinelli estabelece, em “Da prosa à poesia”, Marize Castro, com “Habitar teu nome”, e mesmo nos seus livros anteriores, passa ao largo da mera provocação e do jargão literário, assumindo, portanto, a solidão e a singularidade, a profundidade e o mistério, característicos da poesia da modernidade.

Sem se diluir na ginástica inventivo-experimental dos eternos epígonos das vanguardas, mas também sem aderir ao espontaneísmo sentimental da “poesia-soluço”, Marize Castro parece apostar na autêntica poesia, isto é, naquela “hóspede invisível” e, no poema, como o púnico “vestígio de sua passagem”, para me valer das pertinentes palavras de Antonio Carlos Secchin.

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