Marshall McLuhan e você

Por Luli Radfahrer
FSP

É cada vez mais importante pensar como Marshall McLuhan. Mesmo sem ler o que ele escreveu

É sempre arriscado escrever sobre uma figura tão conhecida e controversa como Marshall McLuhan. Ainda mais neste ano, em que se completa um século do nascimento do patrono dos estudos de mídia e autor de aforismos emblemáticos. Tenho certeza de que alguns leitores conhecem sua obra muito melhor do que eu, por isso não farei especulações sobre o que ele tenha dito ou dado a entender.

O que considero interessante em McLuhan, até mais importante do que suas ideias, foi sua forma de ver o mundo, reconhecendo similaridades e interpretando reações. Em um ambiente de transformação exponencial, em que nada mais parece sólido ou confiável, é mais importante entender a direção do movimento do que os detalhes da forma.

Essa capacidade de reconhecimento é mais natural do que parece. Quando se está em um carro parado é fácil contemplar o cenário em volta e prestar atenção a cada detalhe. À medida que ele começa a se mover, é preciso mudar o foco de atenção, deixando de lado as particularidades de cada cena enquanto se identificam padrões de movimento para se antecipar às curvas e evitar buracos.

McLuhan viu os padrões certos no meio errado. Seu otimismo com as mudanças o fizeram ver na televisão um possível agente de metamorfose social. Demorou um tempo para percebermos que seria preciso algo mais do que TV, web, mídias sociais e celulares para mudar hábitos e tradições tão arraigados, mas que, aos poucos, essa mudança é inevitável. A mensagem continua viva, por mais que o meio tenha mudado.

Para tirar o melhor das ideias de McLuhan é importante considerá-lo dentro de seu contexto histórico.

Nos anos 60-70, auge da guerra fria, muitos acreditavam que o mundo poderia ser destruído a qualquer instante. Era comum o desconforto com os excessos da tecnologia na forma de bombas atômicas, cérebros eletrônicos, revolta das máquinas e paranoias diversas. Nesse ambiente, quem mostrasse um caminho virtuoso tinha tudo para ser bem recebido.

É preciso um pouco mais do que coincidência para se produzir, quase que simultaneamente, conquistas como o Homem na Lua, a Revolução Sexual, o fim da segregação e a Igualdade de Direitos em movimentos populares como Woodstock ou Maio de 1968. Se o mundo está para acabar, é melhor fazer alguma coisa.

McLuhan não foi o único popstar das ideias. Como ele, e na mesma época, Timothy Leary e Andy Warhol foram igualmente rechaçados e classificados como farsas por seus pares e personalidades reconhecidas, tradicionais e “sérias”, enquanto eram aclamados pela população que via neles uma conexão verdadeira com o mundo real e suas transformações, sem demérito dos clássicos ou das tradições.

Em “Flashbacks”, autobiografia de Timothy Leary, ele relata uma conversa com McLuhan, em que ouve que “as pessoas só estariam preparadas para drogas que alterem a percepção quando todos utilizassem computadores”. O LSD foi descontinuado e tornado ilegal, mas não faltam estabilizadores de humor e concentradores de atenção para o povo digital.

Hoje, quando vivemos na aldeia global do Facebook, não se questionam mais as ideias de McLuhan, por mais que suas frases sejam mais citadas do que lidas. Não importa. Não é preciso ir a uma exposição de Andy Warhol para perceber que uma das principais funções da arte é promover a reflexão sobre o cotidiano. Não é preciso ouvir as fitas psicodélicas de Timothy Leary para compreender o que acontece quando as pessoas ligam seus aparelhos, se conectam à rede e, nesse processo, se livram de seus fardos mortais.

Não é preciso ler McLuhan para entender que, em um admirável mundo novo (frase usada por William Shakespeare e reciclada por George Orwell, dois famosos reconhecedores de padrões), é preciso agir como a criança que busca compreender antes de julgar. Ele dizia que deveríamos nos preocupar em perguntar “o que está acontecendo?”, em vez de se “isso é bom ou ruim?”, questionamento extremamente válido em épocas de Foursquare e Twitter.

Por mais que o desconhecido e não filtrado incomode, é preciso ter a disposição para compreendê-lo. Se prever o futuro é impossível, ver claramente o presente não é tão difícil assim.

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